terça-feira, 20 de outubro de 2009

mar

mar


ao ver o mar
adivinho a chuva
como os bichos do campo
ou os velhos nas suas mãos calejadas

adivinho a inflexão das vozes
e estremeço no meu íntimo o que não
risca a fala e sinto

adivinho sombras
e penumbras
no mar à minha frente

como se este me olhasse
mas eu fosse já outra gente
de outro lugar
de outra história

sem a paternidade
de um narrador complacente...

os olhos enfraquecem, ficam
mais velhos e doídos
que a própria carne

não me olhes, mar, com
o olhar dos antigos
ante a estranheza da câmara
sabendo-se presos de alma
a uma eternidade futura

dulcifica se puderes a tua fronte
não para mim que já não sou gente
mas para que mostres ao mundo
o ar maravilhado e verde
que viram os navegadores de antes