vamos imaginar que me esperas e que a dança rodeia o quarto pela cintura. talvez o meu corpo esguio te passe entre mãos sem sair de cena, talvez as mãos detenham a detonação da dúvida. imaginemos assim, violetas de veludo no lugar da carne, e uma valsa selvática pela flor da sala. despes-me a alma calcinada, por baixo o velcro liso da pele. contorna-me a cintura de lés a lés, cerzirás a dor por fora em fusão fria. sem saberes como me convocas tua, colas-te ao riso e lavas maduramente o meu corpo. sou lume e tu combustivelmente rastilho, puxas-me a ti, basta uma palavra e o sangue gravita nas zonas opacas da memória, onde e quando nos amámos como quem esventra a terra e se dissolve no outro em clara posse? sinto-me ousada, talvez te rodeie numa dança descalça, daquelas em que dança todo o corpo e a loucura nos toma os músculos, demoníacas noites de gumes faço-as rasgar-te a boca, o riso, o corpo, a dança do chamamento, e tu vens, afastas a cortina da tenda, o deserto diminui para dentro de nós, somos o deserto e a sede mansa, a sede imensa, a sede do corpo, bebes-me em soluços, já não choro, desprende-se mel e riso, o sabor agri-doce do lugar da morte, antes da morte nos fundir no mesmo delírio. vamos imaginar que hoje me decompões num abraço mouro, dentro do qual eu exulto silenciosamente e te corto a respiração em diamante rubro. pele contra pele, vamos imaginar o abraço fundo, daqueles que penetram no corpo e fundem o aço frio dos medos em direcção à poeira azul das estrelas. só de o imaginar já moro no vínculo sagrado do teu mundo, bato, entro, perfaço numa jogada tensa o que procuro, a dádiva funda do teu corpo mudo. a quilha profunda a penumbra e o segredo, mesmo que não existas, eu procuro nos lugares secretos do tempo, vou buscar-te ao inferno de Dante onde Virgílio te indicou, faço-me Beatriz para te dizer que não há lugares escuros se tu estás dentro. E morro só numa praça vazia cheia de gente.