todas as noites lhe desenho a lua no peito
e o luar em volta dos olhos
mas o meu amigo é cego e surdo
não fala e o seu sonho não me acolhe
saltam laranjais dos meus dedos
para lhe matar a sede ao sol
a ferros o trago à solta
mas o meu gosto não lhe vem à boca
ligeiros os frutos que lhe dou a beber
e o gume da faca que lhe espeto
até lhe exaurir o mundo dentro
mas o meu amigo não sente
o sangue morrer-lhe seco
o meu amigo tirou-me o tempo
há muito que não se assina numa data
nem num nome
só a impressão digital do seu
silêncio ainda aqui me reúne
o meu amigo deu-me um colar
de estrelas cristalinas
agora cansou-se de tanto lume
partiu para outras ilhas
vendi as estrelas, extingui-me
numa muralha a ver se os navios
partem à hora do costume...