quarta-feira, 15 de agosto de 2007

flores de chá...


o amor já me espera no quarto que começou a arder muito antes de nós. o quarto é uma fornalha à chuva, insonorizada pelas vozes abafadas que usamos nos dedos quando estamos sós. tu abriste as janelas que nos emolduram o rosto, e de tão luminosas, uma a uma nos sorri para lá dos pássaros e das pinturas chinesas em papel de arroz. são flores de lótus presas no peito, ternas e ténues flores estampadas na seda que me cobre o corpo, na seda do leito, na seda que nos embrulha a sede de amar. como é bom construir a nossa intimidade, objecto aqui, palavra no local aprazado, corpo florido e tímido, num rasgo de pudor o corpo aprestado ao gesto de amar. curvo-me para o chá que nos filtra a vontade, um chá de olhos postos no amor, vapor entre nós e o amor translúcido a insinuar-se nas pupilas. ao inclinar-me abre-se a rosa do vestido para o rego profundo dos seios. passas a língua pelos lábios, eu sinto nesse olhar a vontade do teu beijo em chá, e acomete-me a própria vontade de me tocar, para te mostrar que desejo o desejo que desejas. o chá preso aos lábios, nunca mais deixa de chover no asfalto inundando tudo de chá, o nosso corpo humedecido em chá, as entranhas quentes, lassas no doce sabor da existência. contigo a tarde e o quarto transferem-se para dentro, é uma estação única este estio a meio do inverno do nosso outono. crescem as rosas por dentro de um círculo de silêncio a adoçar esta tarde que o mundo desertou. movo-me para ti, insinuando a cintura que te estreito entre mãos, as tuas. levo-tas através de mim, num curso que conheço e cumpres de olhos virados para dentro, onde me imaginas irreal para mais me realizares tua. conheço-te as voltas do pensamento, refinámos os sentidos na aridez das paredes e austeridade dos móveis e adornos do nosso amor. o único artifício que nos adula é o pensamenteo cambaleante, ébrio, veloz na sua fuga a trote ou a galope para o prazer. desdobramos o corpo frente a frente, uma só palavra nos rodeia as ancas, como se ao juntarmos as metades côncavas do corpo fôssemos exímios na busca da compleição física que nos originou. estamos assim, completos, lábios trémulos a sentir o contacto quente do outro em nós. eu sou tu, porque tu me és em mim o tu que me faz ser eu. e tu em mim te fazes conjuntivo real do meu ser. ficamos assim a estender a tarde entre mãos, há uma pele oculta em cada detalhe que os lábios buscam, lá fora tudo é algodão suspenso em núvens, só nós dois permanecemos num mundo caduco, velho e triste. tanto chá, meu amor, tanta veia altíssima no sopro da tua ofegante busca... um dia assim ocorre na verticalidade do tempo como um prenúncio de morte distraída, fusão de almas que o céu regista e reúne nas fragas avessas de qualquer idade. nada mexe na ramagem possível da realidade em redor, não há sequer mais realidade para além da forma como tu te moves sinuosamente no fundo do meu corpo, alimentando os segundos com a fome do tempo longo e permenente. meu amor como cada toque teu me abala os alicerces da vida, renasço em cada polegada que me afunda no prazer até ao próximo movimento, atolada na lama primordial dos nosso fluidos, tenso arco o corpo que te elevo, contorcionista do desejo a boca explica aos olhos atentos a forma e os contornos preciosos da entrega.

como um pássaro indolente, riscas a vontade em mim na rasa maresia entre as pernas quebradas de desalento, estou íngreme de ti e velo em velozes ondas como se na ponta de cada enseada me arrastasse e morresse da tua terna leveza... meu amor, a tarde de hoje está-nos presa nas entranhas, tu no teu movimento pendular abates árvores, na tua essência de amar caças, prendes borboletas, planas na asa delta do momento e é como se eu tombasse em ti árvore a árvore, me esvoaçassem borboletas sobre o dorso, e as nuvens nos levassem dentro em almofada agilizada pelos dedos. e vamos, largamo-nos em forma de chuva, desprendemos flores de chá em catadupa, laminamos o grito agudo à beira da ponta da navalha, tu empurras a alma para dentro de mim, o meu corpo é uma concha que te prende e perdura na pele pela sua sede de vida. caímos na montanha dos corpos, depois de os termos abandonado aos prazeres encomendadaos pelos deuses. é cedo ainda para acender o mundo. ficamos até o quarto nos arder pelo avesso das paredes, entre as linhas insinuantes da alma. sabemos planar em silêncio pela palavra suspensa até a chuva ser só chuva, pluviosa e imensa e o chá arrefecer nas taças inconclusas...