ela inclinou o rosto em direcção à solidão e sentiu-lhe o hálito famélico de quem tudo ingeriu e se prefere ainda assim a si mesma e a algo mais que lhe complementa a sólita postura: a noite mítica sem lugar nem estação, a vastidão dos lugares insonorizados, o silêncio dos astros acesos em combustão sempiterna. a noite acesa na busca de si. a solidão é uma velha antiga que se senta à soleira do olhar e dita lâmpadários ou buracos negros a quem a ouvir. a solidão cheira a flores de alfazema embrulhados em saquinhos com bolas de naftalina, a solidão é um poema irrelevante que vale uma vida. agrada-lhe pensar que os anos não lhe passaram em vão pelos sentidos e apura-se na sapiência das coordendas todas da solidão. reencontra aquela noção ciente de que o estado natural da matéria é a retracção, a atracção e por vezes a fusão. campos magnéticos que se atraem se repelem, porque idênticos. campos magnéticos que se atraem porque opostos e se fundem. entre o macrocosmo e o microcosmo os corpos físicos também se atraem e nessa atracção se retraem e se separam por obra de outros tantos campos magnéticos invisíveis que adicionaram às suas existências. o amor é quando dois corpos carregam energias um no outro e se atraem no equilíbrio, ou se desequilibram na atracção, mas se fundem numa fusão feliz. recita-se de cór no que sabe do mundo.
no alpendre da casa formam-se agora, ou sempre lá estiveram, sombras gigantescas que lhe ofuscam a concentração, pequenas folhas a retinir silenciosamente na aragem de fim de estação, projectadas pela lâmpada desde o seu lugar de observação até ao ventre escuro do quintal. corpos em fricção ocasional, sombras em fusão dinâmica, como uma tela de cinema, a natureza projecta as suas próprias memórias transfiguradas. não admira que a solidão também possa ser um lugar frio, ornado de sombras e de medo. reclina o corpo, como se também se entregasse ao sono agitado da natureza. ser folha... só nesse movimento perpétuo e ocasional entende o mistério da existência humana. cada um caminha para o encontro último consigo mesmo, no acaso de fricções, doações, fusões, sombras sobrepostas corpos e lugares apostos e supostos, movimentos impostos e decompostos até à retoma da sua forma original de vida, o embrião, o feto, a célula, o cromossoma, a molécula, o infinitezimal elemento da matéria viva. o nada. a entropia. o fim de toda a atracção entre duas esferas celestes, ou nucleares. sim, que por vezes é preciso manter a distância entre dois corpos, por uma questão de sobrevivência. foi então que teve vontade de chorar e chorou, queria ser mais insignificante e inócua, queria tanto ser atraída pelo seu corpo celeste e aí ficar, pequenina e feliz vivendo nele... odiou a solidão carismática do seu corpo. um campo magnético imenso em volta da sua cintura, em torno dos olhos e na bacia hidrográfica dos sentidos. e uma energia fatal que a afasta para sempre da proximidade do corpo que a atrai por igual na força amorável de existir. voltou para dentro e dedicou-se a escrever uma carta que começava assim: astro e luz da minha vida, conduz o teu olhar e o teu sorriso para mim, entre escolhos e meteoros, luas graníticas e poeiras sem fim, neste mar que nos opõe, meu amor, afasta a solidão que nos atrai (...)