sábado, 11 de agosto de 2007


Pelo flanco da casa a noite em obscuridade plena, o lugar onde os medos de infância se agacham ainda sem falar, e velhas, velhas pedras brilham de humidade ao vago luar. Venho por aí no segredo da vizinhança, não me quero saber por todos no arrecado da casa. A serra dorme no seu leito em declive, eu tremo de um delito que ainda não cometi. Recolho-me mais uma vez em passos de memórias soltas, a salamandra hesita, resiste a lenha, o fria acerca-se dos ossos como uma mão que acaricia. Quero estar a sós contigo, hoje..Fecho os olhos sobre o rasgo de neblina que me espreita pelos vidros. Podia imaginar sombras e mais medos, mas a tua presença aconchegante começa a acercar-se da beira do sofá como uma pluma, um toque tão discreto que pode não ser mais do que o calor da salamandra que me toma. Há um velho brandy no louceiro, bebo um trago, fecho os olhos para te pensar e a carta chega.Estar aqui é aceitar o que me prendes nesta vontade do corpo e da fala em ser exclusiva, voraz e verdadeira. Porque é de autenticidade que se trata, algo que as pessoas desprendem da cintura quando falam do amor e do prazer. Captar a sensação, desenhar a emoção e senti-la enquanto a devolvemos, inteira. Murmuradamente te imagino a voz que pressinto arredondada e funda lembrando a espiral do tempo.
Falas-me de coisas antigas que recolhes nas tuas noites de faroleiro do mundo, falas-me da luz que às vezes vens beber sobre o meu dorso e eu exulto no rubor da fogueira, por estar entre as memórias combustíveis que te permites ter. Não temos pressa de concluir a fala, só mais tarde as mãos, ainda que mais cedo a vontade de emergir por dentro, para cumprir o ritual simples de afagar o rosto.
Vês-me a sorrir como se te convidasse a distender o mão que crispas sem saber. O fumo, pois falávamos no fumo, a memória vem em volutas esparsas ocupar o lugar do corpo e nós hoje aqui apenas nos queremos nas coordenadas simples do presente. Partilhamos o mel do brandy, a mão que oscila e se repõe no colo desoladamente. Nunca sentiste uma vontade desesperada de mãos no vazio dos instantes? Não há rumo para as nossas mãos, talvez o toque ocasional da passagem da garrafa, o tremor súbito, a boca que se cala e o olhar que afaga. Adorava que me pegasses nas mãos, peço-te, mas não digo. Tu sabes.
Conta-me agora de mãos dadas como bebes da noite a essência decantada nos húmidos relentos, mas não queiras ofuscar com ela a simplicidade da pele, o calor que emanas. Mãos. Roladas, enlaçadas, presas dos olhos e do silêncio. Eu procuro agarrar-me à fala, na tremura do momento. Calas-me num súbito beijo fugaz, daqueles que afloram a parte mais íntima da pele, e apenas se inscrevem na categoria de terno afago, a primeira carícia entre pele. Beijas-me com ferver as mãos, meu amor, como me parece religioso o toque, os meus dedos na tua boca agora mais dentro e eu fecho os olhos, o sofá abre-se ali mesmo, o meu olhar desce sobre o teu. Agora. Em cinematográfica lentidão, a boca espera, o olhar comanda a entrega primeira das bocas e das línguas à beira da fogueira.
Meu amor, como me sabes bem neste crepúsculo dos anos e das vidas, olha como o nosso sangue se aviva e ruboriza na dança imprecativa das línguas. Os teus lábios apetecem como uvas. A tua língua apreende-me a vontade toda. Sou ali pasto da tua boca. E é então que me abraças com toda a força do que me queres dizer, a cinza, o céu às vezes seco, a aurora castanha e velha, o dia aprumado sem leito, nem rio que nos deponha inteiros na mesma margem do tempo...
Ou então a minha solidão sem tecto no teu corpo, os meus dias entre o sol e a noite, por eles, acrescento-me no abraço, demoradamente pouco. Estendes a manta no chão e levas o brandy, cercando-me no teu olhar com a intensidade de Bogart intrincheirado no corpo não esquecido em Casablanca e eu vou em alvoroço. Delicadamente as peças a mais caem sem pressas, temos o tempo todo, porque o tempo se nos renova a cada sopro, a reserva inesgotável do encontro na zona despida da noite, onde tudo é possível, até tu beijares a minha pele com os teus lábios de uva e eu sorver-lhes o sumo para consumir na zona mais inabitada da alma em espuma.
Caímos no rumor das ondas espraiadas em redor dos ouvidos, roladas as palavras de carinho fervente, acumulado, avivado pela descoberta da realidade na curva ardente do pescoço, no pêssego macio de cada seio, frutada a pele aromatizada de desejo. O teu de encontro ao meu. Entramos juntos no quarto do crescente amor, ali mesmo nos afagamos até a bruma se desvanecer pelo olhar ou pelo lugar do corpo. Demoradamente unidos, somos finalmente um entre alma e corpo, no limite de um real que soubemos retirar da base trémula dos dedos.
Permanecemos. Até o lume avivar de novo as vozes, rindo sem saber de mais segredo do que os versos loucos sem rima, nem tino, acarinhados no ouvido desperto de um e de outro. Lá fora a serra em suspenso anuncia o sortilégio dado aos poetas, aos poetas somente, de a habitar em noites de amores efervescentes no reverso das memórias e dos ventos.
De manhã o sol virá trazer as mãos, de novo as mãos, para continuarem pelo sol adentro até que cada noite se una ao dia, no coração de uma serra interior, uma casa perdida na vontade de quem a habita. Fiquei a saber que os teus lábios têm sabor a uva. Mas o mistério de ti, esse continua inscrito na palavra que te desenha em cinza e fantasia, no lume apaziguado do meu corpo.

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