quarta-feira, 29 de agosto de 2007

rosas no lençol


sim, estive a bordar para ti rosas num lençol
estive a cozer por dentro a minha vida
linha a linha a pele é um areal ao sol
a vida é movediça e o meu coração transita
para onde o teu olhar me acolhe

sim, esta é a hora da palavra engalanada
sim, aves perdidas esvoaçaram em minha alma
em mester de um medo inusitado
estava escuro, e havia um lugar apagado
tu não estavas, nem te vi em nenhum lado
precisei de encontrar os fósforos
para tactear a minha solidão
e encontrar a tua boca colada ao meu silêncio
a beber um pouco de água

sim, só agora silenciei as asperezas do mundo
tanta pedra embrutecida e tu não estavas
tanta pétala espalhada em meu regaço
meus seios silentes em bicos empinados
e em meu redor uma lua de ilusões
mas tu não estavas
.
vozes falavam, havia obscuras razões
alguém despedia um inquilino da sua alma
outro alguém fechava ao mundo a sua casa
todos falavam em desarmónica mente
e entre todos a tua voz tornou-se sopro
um inaudível respirar rente ao abismo
.
anunciavas profecias de um novo ciclo
e entre os pregões havia uma dor da alma
que cega se encaminhava na penumbra
para um caminho sem viagem além da curva...

sim, este meu sonho é a sombra do meu mundo
tudo é tão raso e tão mesquinho
que eu receio que as flores deixem de brotar
nos meus sentidos
e que o desejo se aniquile e a paixão se torne
lugar de espinhos
.
sim, o meu pesadelo é também a tua ausência
revolvo-me na falta da tua fala profusa
na tua palavra que vem cinzenta
na tua trova ambígua e oxímora
nas sua dúctil omniciência
que a todos os corpos experimenta
na vontade expressa de quem as ouve
e torna suas e imensas
.
sim, não há luar tão belo como o da espera
da vida que te sonho e que eu quero
venha a ser um dia um sonho ainda mais belo
sim, acredita, amor meu, o tanto que te quero
é o muro que construo em meu redor
ainda antes de te perder eu já te perco
para que perder-te não me cause
dor maior...

sim, se ainda não sabes como me faltas
ficas a saber do nó preso na garganta
nas noites em que o teu corpo
junto ao meu se acrescenta
na decifração das flores pelas manhãs
entender o luar dos teus olhos
e esse mar que tem dias melhores e piores
emagrecer com falta de amor
passar fome de palavras vindas da tua
inequívoca pessoa
sentir que entre todas eu sou aquela que
entoas
e sentir enfim que não estou só nesta viagem
não importa o destino que nos leva
o importante é estarmos sempre, todos os dias
e horas da desta floresta que é o mundo
na mesma altíssima e profunda margem

eu e tu de mãos unidas e murmúrios de amor
doce e selvagem, presos po fio
prontos a cair na arena do desejo
seja ao sol do meio dia, ou seja à tarde
seja de noite ou quando houver
entre os dois a vontade de nos entraramos
e nos encerrarmos no serralho
único e exclusivo do nosso lar feito de areia
e de ternos afagos

sim, meu amor, prende-me com mais palavras
excede os limites todos da velocidade
das teclas, arfa as palvras que me escreves
e assina por baixo um nome que eu conheça
e saiba que és tu sem dúvida que me ferves
raiva, dor, tortura ou tentação,
desejo, harmonia ou desunião
quero-te mais ao pé do meu ouvido
debruça-te sobre mim e alteia o teu coração de ave
verás que me ouves falar-te com uma voz
branda e suave as tentações que o teu
olhar me desagua no palato

amo-te é pouco para significar
esta dor de tentar achar-te num mundo
a arder por todos os lados
de tentar tocar-te num mundo de ondas vibráteis
sentir-te num lugar onde a tua ausência
pode ocupar por vezes o lugar da morte

sim, usar as palavras convencionais
para te olhar de frente é falta de arte
os olhos que te fixam neste momento
serão a minha mais eloquente verdade...