A mulher de avental, vem de dentro a limpar as mãos, enfarinhada e transpirada. Está calor, o fogão aqueceu-lhe o corpo, corre-lhe uma pérola de suor entre os seios. a mulher ainda busca com o olhar o entardecer, veio num salto ver como agonizava o dia e espreita ansiosa o horizonte. talvez um águia ao longe venha vê-la, talvez uma borboleta se apresente e lhe brilhem os olhos para dentro. chamam-na. a mulher doente pede que ajude a mulher idosa a levantar-se. vem uma criança e pede insisitentemente água, o fogão crepita. a doente pergunta se está na hora do seu medicamento. toca o telemóvel, alguém pergunta sobre algo. a sua mão treme, sem se conseguir lembrar do que tem de fazer. o sonho ficou a brilhar enredado na enrendilhada árvore. talvez logo escape, consiga fugir a tanta gente que lhe caiu de repente em cima. era suposto ter companhia, família que a ajudasse. mas não se previa que a doente adoecesse e que a idosa lhe caísse em cima assim de repente. também não eram tantas crianças, de súbito foram gostando de estar ali, de lhe pedir lanche, de lhe mostrar um desenho, uma pirueta na bicicleta. Filhos, tanto barulho! Alegria desmedida e ela desatarantada. Pela tarde ainda subiu ao amor, e se lhe entregou. fechou os olhos e pensou no amor demoradamente como o amor também a pensa. o seu príncipe havia de estar a brilhar ao sol, inflamado de si. o príncipe viria galgar o tempo no alazão da tarde, sugar-lhe os seios e antepor-lhe as mãos em todos os sentidos. tocou-se devagarinho, entre a sonolência e a volúpia. O desejo mais cravejado no lugar exacto do prazer.
Parecia vestida de merino finíssimo, delicadas asas com a frecura de rosas, tensa na entrega, embriagada de uma intimidade tão próxima que lhe parecia ter sido arrebatada para uma nuvem de prazer. Eram talvez três horas da tarde. Sabia que podia continuar assim a tarde toda. Ele desembarcara na sua ilha, a enseada ampla de ancas e corais, a pressa de se deixar levar pelas emoções. Chamam-na, alguém veio não sei de onde trazer uma cestinha com a fartura dos campo. desce com ar estremunhado. Não faz mal, diz, obrigada. Quer um cafezinho? E pronto. Nunca mais se conseguiu lembrar de que existia. Compras e mais comida e lanches e cuidados e depois louça e mais a hora das crianças, os banhos, as histórias. Quando voltou a vestir o leve vestido de merino, cor de cereja, talhado para o amor, a fada madrinha veio anunciar-lhe que não havia abóbora disponível, e que de qualquer modo já era tarde para tudo, sobretudo para a vida. A gata borralheira prometeu que no dia seguinte ia adiar o mundo mais cedo.