debito o monólogo em métrica solta. não há um só lugar no quarto que não te pertença e porém nunca te alcancei, nem te vi ou te ombreei. adormeço solta num lençol que destapa os sonhos, transpiro por um corpo que não vi e julgo belo, pressinto carícias fugazes e trémulos e entre estrelas temporizo o pensamento para ocultar lápides de desejo. alcanço-me em busca de ti, sem que me pronuncies na distância, bruxuleante névoa no escuro eu espalho pelo quarto a minha lúcida loucura que consiste em falar para o auricular do teu mutismo, pronunciando palavras como bocados de vidro partido, grãos de areia sem sentido, o pulsar rubro do meu ventríloco. amestro-me no cultivo do prazer em válvulas de desejos ocultos a respirar uma intimidade que semeei dentro de ti. presumo a minha unilateralidade como um processo de decantação da palavra, a tua oculta-se num mistral de silêncio e eu depuro daí toda uma vidência que me conjura a solidão. Ah, meu amor, saber-te enclausurado numa colina de palavras sociais, a voz presa, pigarreante, aflita no seu pudor, vaga e vazia de sentimento, e imaginar a trémula Primavera que brindas à sombra do meu olhar... a simples possibilidade de poder ser deixa-me na impossível luz de um presente de plenas libações que talvez pudesse ser usado um dia para resgatar as memórias que não houve.