quinta-feira, 9 de agosto de 2007

carta do corpo I


Les amants de Rimini
cartas do corpo escritas com a voz abafada por um íntimo desejo, todos os dias o meu corpo te escreve, o meu corpo lânguido ou hirto indica-te a distância a que me encontro da tua pele. todos os dias te encontro e em todos eles te perco. para mais te ter o meu braço de amor é um promontório que cresceu e partiu para longe do meu mapa. esqueço-te todos os dias um bocadinho mais, para não me prender tanto, mas na verdade quanto mais me desprendo, mais me faltas, mais me encanta a prisão de que me procuro desprender. és como as árvores que me crescem em volta, os seus ramos e pernadas fortes ocupam uma extensão cada vez maior do terreno. com mais ninguém posso dramatizar o amor desta forma rasgada e funda, o amor hoje soberbo e de espadachim em punho, o amor amanhã melancólico, hoje semeado de lágrimas e dúvidas, finalmente o jubileu do amor a garantir a sua progenitura na solenidade da solidão. só tu respeitas e sustens uma casa em equilíbrio nos ventos da falésia, só a tua mão me prende à janela do olhar, soltas-me e eu consumo-me em erva ou em pedra sem muito pensar. lamento dizer-te que agora é tarde para me regressar. a tua pele somente a tua me desperta a doce sépia do desejo, nas minhas mãos o resguardo, o arrojo, na minha boca os beijos que te guardo e raciono e esbanjo e te cravo a prumo, em noites como esta, imponderáveis de lume e de maré, intermináveis porque nos combinam no tempo a voz, o cicio, o afago do corpo, o zénite da união. talvez um pouco da morte, talvez apenas uma migalha de pão, estas cartas que te escrevo com o corpo são assinadas a sangue e lacradas com um rubro baton de intensa paixão. onde te demoras meu amor, para que a minha escrita se enforme perto do teu coração, num corpo vestido de suave e brando amor?