domingo, 4 de março de 2007

Transparência


o quarto revestido a pedra, o vidro das sombras define distâncias. este espaço curva-me o dorso, pressiona-me as ancas, estrangula-me os passos, em cada dia o nosso mundo mais estreito, dobrado para dentro, uma veia, um útero . é mais uma noite a nascer nas nossas bocas e nós perdidos na imensidão do quarto onde mal cabemos. a cegueira das sombras aperta-me contra o coração da casa, ofusco-me no brilho das paredes, antracite pura, frio reflexo o lugar da tua ausência. estendo-te as mãos mas não as vês, o mundo é um lugar aparente onde te perdes sombra de ti mesmo na forma em que vagueias. no quarto ganhamos a nossa natureza informe, a verdadeira que nos assiste. posso ser uma rosa nacarada, uma pétala de concha, uma estrela-do-mar, uma estrela tatuada ou uma mera palavra e serei a minha essência mais fiel. desabituei-me da pele e do cansaço dos membros. aqui me dispo de tudo que do mundo me prende. ganho a dimensão mais ínfima da minha cópia fiel à solta na luz do mundo. neste quarto são as sombras que me falam e só elas são reais. enroscada no sonho, conto grãos de areia sem pressa de os contar, sabemos esperar, eu e a noite que se espera pacientemente a si própria. o momento exacto da escuridão em que as sombras nos falam, eis o que diz o reflexo no quarto de espelhos esverdeados pelo tempo. encontro-me aqui todos os dias comigo própria, às vezes compareces ao encontro que tens com a tua solidão, sou eu, agarras-me, prendes-me pelos ombros e encontras-te, trespassas-me na minha absoluta transparência e a noite enxerta-nos como dois troncos de jovens árvores ainda frágeis, para nosso próprio sustento. só então o amor invade o corpo da noite, como uma rosa ela deixa de ser um botão de apenas silêncio e esmaga-nos como transeuntes clandestinos pequenos demais para caber no seu curto prazer do momento. só então retomamos a nossa forma, o sal do corpo, a pressa de acontecer, de deixar marcas, riscos, sinais rubros, memórias fluidos, perfumes, a voraciadade dos gestos. contemos a voz para não despertar as sombras, bebemos na boca os gritos, engolimos o prazer sem que uma só palvra seja dita, só para não acordar a noite quenos habita. hoje não estás e eu ocupo todo o espaço da noite, aproveito para descobrir as formas do meu corpo, desvendar a trasparência, vesti-la de pele, carne, desejos, ou talvez enternecer-me com a impudícia das palavras tatuadas nos meus dedos. por isso espero sem esperar que a noite se abra para que me atravesses novamente, sem me veres.