sexta-feira, 23 de março de 2007

prece da tarde


abraço-te no poema que mais pele já não tenho
sou como as mulheres nativas de um mundo que não conheces
ando descalça na vida e bebo a sede no ventre
de noite abraço o meu corpo - de dia só faço preces
amasso todas as razões com o suor e o silêncio
peneiro, peneiro a alma, peneiro o tempo e as dores
os afagos desta selva uma selva de areia ou de cimento,
sou das árvores que resistem
tenho ramos tenho abraços tenho para ti sementes
tenho a esperança em cada hora
tenho um filão de tormento uma mina onde mergulho
para te achar os pensamentos e sempre mais me enriqueço
ouro sei do teu olhar extrair a medo, e se d'ouro não
for que baste, mais te deixo o meu regaço e o meu seio,
menino meu que quero moço,
saia travessa agitar-te o corpo neste verso
é a tarde que entardece e eu que a bebo pouco a pouco
quero rezar mais esta prece, antes de ir quero dizer-te
não és um deus no altar dos anjos,
nem filho novo que o seio me sugue
ou se agarre às minhas vestes
sou mulher nativa, rezo sempre com o corpo
e só o corpo me deves.


Uma boa tarde!