quinta-feira, 22 de março de 2007

paisagens interiores


O fato de saia curta, com pregas, que a fazia menina, no equilíbrio de uns sapatos finos e meias de seda, uma variante à eterna ganga que lhe conhecia. Costumava usar aquelas roupas em dias especiais e só agora, do canto do olho, se apercebia que esse dia pudesse ser especial, nada que ela lhe tivesse contado, algo inesperado, talvez garridice da Primavera, porventura. Ferrou o olho, fingindo um sono que já não tinha, desde o momento em que entrara na zona de espera.
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Deixou-se ficar a imaginar-lhe o serpentear pela casa no tic tac dos saltos, numa penumbra que em tudo lhe falava de intimidade, uma curta metragem num ângulo de luz, pela porta, a figura dela que passa, uma e outra vez, uma silhueta recortada a negro, não lhe vê o rosto, não sabe se vem feliz. Amanhã vou pedir mudança de turno, nunca nos encontramos, (a não ser num curto espaço de tempo da noite, roubado ao sono, um círculo aberto no fundo escuro da noite para longo se fechar e só um ficava dentro). Ela trabalha de tarde e de noite, ele começa cedo e volta no momento em que ela parte. O tempo de a estreitar contra uma parede, alimentando o vício do corpo, em ondas mistas de ternura e de desejo. Ela ri, com aquele cambiante gaiato na voz, eu enlouqueço, por vezes gosto de lhe remover todo o baton, sugar-lhe o lóbulo, despenteá-la, torná-la menos feminina, agora que parte de mim. E guardar-lhe o odor. Naquele momento, pelos movimentos sabe-a perto de chegar. Falta pouco para lhe sentir a seda do corpo entre os seus membros. Fresca ao toque. Aguarda entre os lençóis.
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Ela introduz-se furtivamente no quarto, ele dorme, deve estar cansado, não posso acordá-lo, mas será que resisto, será que ele resiste ao encontro da pele, tenho frio, quero senti-lo bem no fundo de mim, uma vontade de me desvanecer, papel embebido em água, desaparecerei se me toca. Fica por uns minutos a olhá-lo. O rosto repousado, feliz, quanto carinho lhe tem, abandonado ao seu toque, segue-lhe a curva quase hirsuta da teimosia, as sobrancelhas, depois o nariz, delicadamente, uma mulher pode amar um homem só com o olhar, de perto ou de longe, o cruzamento de vontades, o carinho materno, a vontade de o fazer seu menino, a vontade de o fazer seu homem, a vontade de o tornar rendido e depois grato, infinitamente grato. Vê-lo adormecer de seguida e sorrir, encostar-se-lhe ao peito e tomar o mesmo caminho, urgentemente, para não ficar para traz, prisioneira de mil cuidados muito femininos, ninguém adormece como um homem que e sabe amado, após a consumação feliz do amor.
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Olhá-la nos olhos, enquanto a sente tocá-lo tão delicadamente, abrir-se-lhe na vontade da pele, render-se à carícia. Mas receia que ela páre. Agora beija-o nos olhos como borboleta que lhe pousasse nas pálpebras, uma e outra vez, enquanto lhe acarinha os cabelos entre dedos. Gosto de possuir o teu sono, agir sobre o teu corpo, entrar no teu sonho como se eu mesma sonho fosse, outro. Os lábios, agora sei que não vais resistir e o sorriso que virá rende por todas as minhas e tuas ausências. Passa a língua, morde, bebe, insinua-se pela boca, serpenteia-lhe pelo corpo lábios e dedos, arranha, risca, despe-se e mergulha no calor reconfortante do seu corpo. Aflora-lhe a pele, sabe-se fria, o corpo dele quente, desliza-lhe pela epiderme, beija-lhe apaixonadamente o pescoço, ele cede, estremecimento breve, no momento em que um braço vigoroso a prende pela cinta, ele que abandona o jogo e a estreita, mergulhando nos cabelos a sua vontade de se lhe entregar, de a ter toda sua, finalmente, como se o antes nunca tivesse existido e o amanhã nunca chegasse. Desesperadmente quase dentro, ambos. Os músculos jovens prendem-se, degladiam-se, a pressão vem cada vez mais do interior, rolam no leito, são cascalho miúdo que uma corrente forte agita, entrechocam-se sofregamente, nem uma palavra, vem, meu querido, prende-me, sim, meu amor, assim te quero, tensa em mim, vulnerável, quero permanecer assim no fundo mais fundo de ti, recolhe-me o desejo, a terra palpita, o universo pulsa no centro interior do teu corpo. Meu amor, quando me penso é contigo, em qualqeur momento que viva. Pára. A vertigem, sim a vertigem, contém a torrente, meu amor, o rio é fundo e corre até morrer. Uma eternidade o silêncio entre portas, a cúpula de estrelas cúmplice das noites amantes, mil luzes citadinas se apagam e se acendem intermitentes de vida, nada que impeça o grito de atravessar as nuvens até ao infinito em que se prenderam. Homem e mulher.
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Demoradamente lá fora o tempo parece mármore, há uma janela aberta sobre a cidade, os dois podem ser a balada de uma cidade anónima, uma janela apagada entre milhares de outras apagadas também e contudo por dentro também acesas na intimidade dos corpos. Interiores. Dorme meu amor, os meus lábios rente ao teu pescoço, sentir-te vivo a palpitar contra o meu rosto. Amanhã sais a mesma hora? Já não te vejo. Acorda-me, ama-me de novo. Hummmm, logo vejo.

Boa noite!