a escrita quotidiana sai lentamente do corpo para o teclado, num acto de sunambolismo com as primeiras horas da manhã, o cheiro do café acorda o verso, a palavra no despertar do pão que nem sequer é honesto e quente, como o de Cesário, os minutos contam-se em palavras, uma palavra vem em minutos, adiciona outra em segundos ou leva uma eternidade de silêncio a ser achada. os batimentos do coração o diapasão que busca as palavras, nunca sei o que vou dizer, no fim quase não respiro e o que fica é peça imperfeita, nunca me está acabada. a palavra uma espécie de foice que monda, monda, separa o trigo do sonho, o joio da realidade e eu escrevo pelas manhãs, insisto e escrevo, quando já não há muito a acrescentar aos dias, saem palavras por inércia de parar, os dias também não querem parar, o tempo metaforiza-se numa ave apressada que passou pelas nossas vidas e as levou. já é tarde para fazer parar o tempo, podia ser hoje, podia ser amanhã, mas não digas nada, o engano vai continuar, achamos sempre que ainda vamos a tempo, mas apenas chegamos no momento de nos cumprimos com a obrigação. podíamos ainda descobrir os atributos que nos restam, emoldurá-los e cobri-los de verniz, talvez a fala, o equinócio da voz, a silhueta, o calor das mãos, o lume do olhar, mas o tempo também nos ensinou já a permanência dos móveis no seu lugar, o lugar exacto das pessoas na paisagem interior, a incongruência dos seres nos lugares onde não pertencem. um objecto não cede o lugar a uma pessoa, e uma pessoa não se contenta com o lugar de um objecto. só as pessoas envelhecem ao lado dos objectos sem os matar um a um pela sua tirania e persistência. a matéria inorgânica pervalece intacta, as palavras são matéria inorgânica que não envelhece. apenas o corpo continua a escrever o seu claro desejo, só o corpo sabe dos lugares que ocupa na pele de outro e é tão fácil pensar um corpo, deitá-lo num leito e cobri-lo de beijos, apaziguar os frios do Inverno, cobrir de sol um corpo que dorme. é tão fácil verter toda a alma no centro de um corpo, morrer devagarinho dentro de outro e renascer para a noite, para o sono, para a manhã de límpida e serena fronte. é tão fácil ser feliz, basta saber dizer onde. basta saber ainda dizer, basta ainda ser, não é preciso mais do que deter a inércia e tirania dos objectos que nos puxam vertiginosamente para dentro do lugar da morte.
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Bom dia, é preciso aprender a não desistir!