domingo, 25 de março de 2007

o outro lado da noite


entro no lado clandestino da noite, depressa, a noite já nos afastou demais do lugar onde nos queremos, como árvores vigilantes uma pela outra, presos pelos olhos ou pelos faróis e eu gosto mais de nos imaginar como dois faróis distantes e difusos na sua brumosa intermitência. ando a aprender o código morse para te mandar postais de amor em todas as horas que me lembras. para te dizer mais uma vez, tu nunca me entendes, que neste lado da noite não há distâncias a galgar ou a abater, nem promessas a quebrar ou a cumprir. quando nos despimos o mundo alisa-se perfeitamente na palma da nossa mão, a pele o mapa despido de toda a conduta ética que nos escraviza no lado contribuinte do mundo. quando nos abraçamos calados, na discreta exuberância do encontro, apagamos as imagens do dia, por vezes de toda uma vida, nada nos vem à boca que venha dos lugares fora de nós. nascemos dentro um do outro só por momentos, tão curtos, o tempo que medeia entre o relâmpago e o trovão quando a tempestade se abate sobre a cama, talvez depois seja possível retardar o momento de voltar a revestir o coração com a pele do quotidiano. não será por muito tempo, temos mãos e pés que falam a linguagem da realidade, a boca exprime-se, os pés pisam o concreto, as mãos amadurecem no corpo. vamos ao mundo e estarmos juntos é apenas uma fraqueza momentânea do corpo, que, cambaleante, ainda julga ser possível viver dentro do outro sem se perder. e assim a única verdade que devemos é a nós próprios, a única verdade que conhecemos é ainda a nossa. jamais atravessamos a fronteira do outro para além do limite do incogniscível, lugar onde por vezes nem mesmo nós próprios vamos. somos banais de tão livres, e por isso prisioneiros das limitações da liberdade. e neste périplo de pensamentos vadios reconheço intacta a incapacidade de dois seres cruzarem as suas existências profundas caminhando dentro delas, entrando e saindo como de um quarto, e é pena, gostava de viver contigo num intervalo amplo das palavras, um salão luminoso onde fosse maior o bailado das almas, o rodopio dos corpos, no lado clandestino do amor. gostava de ser um espelho que te guardasse a imagem até ao fim sem se partir, o corpo que te fosse gémeo na dor e no prazer, afinal o amor é uma visão tão próxima, mas não pode ser, e o mais que te posso dar é a complacência da minha nudez quando nos lembrarmos de morrer ao lado da vida.