toco-te com a voz embriagada e voltamos a falar. entre nós o discurso é um ribeiro farto com seus estuários, pegos fundos, ou pequenos fios de água. e há noites em que nos despimos de tudo e deixamos só a pele e a voz, como hoje que nos rasamos tão perto que nos confundimos entre o eu e o tu. é confortável o bocado de mim que te dorme dentro, como o bocado de ti que amamento no seio, na demora do sono. é impossível fugir ao sortilégio que me prende à solta no teu peito. quando me tomas na voz, sinto-te sensível como vinil e fica um disco a girar sem música neste silêncio que te repete, no fundo da noite, como uma carícia leve, persistente. é neste lume de dentro que te ouço rodar, rodar, uma e outra vez no risco certo do tempo.
fico aqui sem barreiras a sentir-te aí, tão perto e tão urgente. fico e não sei que dizer-te que traduza a emoção destes momentos que passamos no lado nosso da noite. talvez falar não baste, quando as mãos se arrastam pelo escuro a tactear teclas no lugar de um corpo. talvez seja preciso desmineralizar o organismo, liquidificar o sangue, deixar tudo fluir através das fibras ópticas da imaginação que temos. agora mesmo o meu corpo te chama, com isistência, ouves? fecho os olhos e a suavidade que se acerca de mim é um feitiço poderoso. queria o teu peito e dentro dele um nicho e eu pequenina lá dentro, num regresso à minha génese. mas queria também sentir-te na boca, preso a mim pelo lugar do beijo, demorado e profundo daqueles que invadem tudo e bebem as pulsações do coração. um abraço que fosse a fusão última da matéria, apertado no silêncio de todas as palavras, até que o sangue se refizesse e nos tomasse a pele. queria meu amor, tanto ter-te aqui... a maçã do teu corpo presa em mim, como se o corpo distendido se ocultasse no outro, uma pausa no conhecimento da pele, tempo de contemplar o momento, as formas agasalhadas no olhar, tempo, meu amor, para todos os prazeres que a evsão do corpo traz. a nossa noite entre duas paralelas brancas, infinitamente lestas no andar, a noite dos murmúrios e das promessas sem pressa de pagar, a noite solta dos gestos cadenciadaos, um eco nos sentidos repetidamente loucos, anda meu amor, acerca-te mais, quero ouvir-nos neste doce acto de amar, diz-me todas as coisas que os ouvidos querem escutar, toma-me entre ti, dentro do teu olhar, deslizemos neste prazer, estamos presos num mesmo cálido pulsar. esta é a noite amante que hoje te quero dar.