segunda-feira, 26 de março de 2007

naquele tempo...

naquele tempo as noites uivavam por entre o
arvoredo e havia luas presas nos teus olhos.
eram então bíblicos momentos...
eu vinha sentar-me ao teu colo sem saber que então
te cresciam no peito velhas giestas cobertas pela
solidão do deserto.
olhavas-me com a placidez dos pastores que
guardam pensamentos antigos na fome calada dos montes...
vês o meu gesto de abandono? sou de novo menina
e o teu colo é o baloiço dos meus sonhos.
tu puxavas-me para o centro do teu corpo
no ponto onde te crescia a solidão a fundo

então o dia clareava em volta dos teus olhos
e tu sorrias com a palidez do sol de Inverno.
talvez o teu amor nascesse com as estações
nos primeiros botões da amendoeira
e morresse com elas em cada maçã serôdia
cada folha seca a rastejar na poeira...
talvez a realidade te habitasse desmesuradamente
para que não tivesses de a habitar
mas o certo
é que um dia no teu olhar cresceu um tronco
e nele vieram pousar todos os pássaros mortos
da casa abandonada dos teus sonhos
e eu desfis as tranças e parti
para onde as mãos tangem o mundo

porque naquele tempo ainda existias
no fundo da minha boca
como verbo como carne como nome
como o ser gramatical dos versos loucos
e eu vertia sal na água das fontes
se te sentia à tona do meu corpo

não sei se foi o tempo, se a neblina
se um excesso de musgo...
mas no pulsar dos dias
perdi a latitude do teu rosto
excessivamente cavada na memória.
eu diria, se não fosse pouco
que nasceram flores sobre o teu busto