ainda esta noite o vendaval virá
nos teus membros sedimento e sal
brandes cruzas-me a maré
em vaga cega ao rol do olhar
e passo à proa a língua leve
inundar navios na tua pele e
entre nuvens frágeis navegar
assim te espero à cinta
o seio aceso o cume a arfar
II
virás no teu jeito navegante
entre portos tuas mãos aprazem
cercas-me no enlaço do redil
pelos mamilos teus dentes pastam
porque esta noite é fria e frágil
e a tua sede é de sal antigo
um cordame que te prende ao mar
ao escorbuto da fala por falar
e o meu anseio é desembarque
entre o teu porto e o meu mar
III
esta noite o corpo fundo pára
na perdição das ancas tuas arcas
na junção e disjunção tu travas
e escureces dentro do prazer
vais ao limite da fala até cingir
o som que nos treme
na garganta da guitarra
e o mundo parte enquanto falas
um só corpo ondeia e baila
rios selados tensas almas
IV
tudo treme dentro da pausa
a noite pulsa e breve chama
funda penetra e a seiva sara
vens e voltas nas profundas águas
e de novo te reténs entre palavras
como quem se salva da morte
para morrer um pouco mais
nos braços da morte que salva
V
silêncio na pele do poema
as tuas palmas prendem o prazer
contra mim te moves sem querer
já não tens freios deslizas sem ver
há uma inércia aparente na paragem
e no prender e desprender tu partes
eu sulco a pele entre duras garras
e o poema expande-se numa métrica
solta no corpo rubra na fala