falo-te da pele, a pele compulsiva, o corpo crescente na passagem do tempo que nos damos. quase nunca te falo de mim, mesmo quando me falo na busca das mãos e me dispo para ti na busca do prazer. talvez devesse dar-te notícias breves, como por exemplo dos percursos cada vez mais curtos que faço a caminho de ti, ou dos raríssimos segundos em que me evado da tua prisão. dizer-te por exemplo que não te conheço a mentira, embora me deite a teu lado com ela de permeio, desde o primeiro dia. não quero vê-la, é um lençol que te tapa, mas não te oculta, não quero saber onde te levam os passos que dás dentro da mentira, a minha é tão vasta que não poderia conter a tua.
e porém, não me lembro bem qual a minha mentira, se a de ser tão igual ao que te mostro se a de fingir que sou igual ao que não te mostro. igual às palavras? podemos ser a tela exacta das palavras, ou são elas o elo maior da mentira? concebes palavras que não arranques do corpo? as nossas não, nunca as nossas. as palavras originais da criação, são tuas e são minhas, o verbo é nosso, porque nos estremece e inebria como um bom vinho, são palavras de uma casta enobrecida pelo sol, pelo solo agreste, pelas umbrias zonas da existência, o isolamento entre as gentes, pelo caminho arenoso, onde a melhor uva cresce.
por isso, porque te sei a limpeza das palavras, não te peço que me digas onde me mentes, se não te mentes no que me dizes. nada na vida é irreversível, nem mesmo uma mentira que se desata numa verdade, mas o que pode ser irreversível é o equilibrar toda uma existência em nós cegos de mentiras. sei que se és engano não é a mim, nem a ti, e assim a mentira é apenas a distância que vai de nós ao mundo.
gostava de te dar estas e outras notícias, falar-te de mim, nestes anos todos de ausência, contar-te da espera, da ilusão, da persistência, ensinar-te talvez esta arte e a da constância, o quanto é doce ser execlusivamente de alguém durante o que resta de uma vida, encontrar um refúgio, depois do desabrigo, e dedicar a vida a torná-lo um lugar seguro. dizer-te como fiquei de longe a olhar-te, em pequenas vagas de amor que raras te chegavam, porque te guardei na distância, como agora te guardo fundo.
dizer-te como me esqueceu já qualquer pluralidade discursiva. eu é uma palavra em desuso no meu mapa de afectos. somos nós e o mundo, um verbo que inventámos para conjugar secretamente no aconchego das noite, entre madrugadas, o verbo que nos diz, como se fosse um nome, embora todos lhe chamem pronome. na verdade, este pequeno mundo nosso é o vasto deserto da alma que se recusa a caminhar só e se semeia noutro. e só pode haver verdade na semente que cai porque a terra a puxa e o corpo da semente se quer dentro.
e porém, não me lembro bem qual a minha mentira, se a de ser tão igual ao que te mostro se a de fingir que sou igual ao que não te mostro. igual às palavras? podemos ser a tela exacta das palavras, ou são elas o elo maior da mentira? concebes palavras que não arranques do corpo? as nossas não, nunca as nossas. as palavras originais da criação, são tuas e são minhas, o verbo é nosso, porque nos estremece e inebria como um bom vinho, são palavras de uma casta enobrecida pelo sol, pelo solo agreste, pelas umbrias zonas da existência, o isolamento entre as gentes, pelo caminho arenoso, onde a melhor uva cresce.
por isso, porque te sei a limpeza das palavras, não te peço que me digas onde me mentes, se não te mentes no que me dizes. nada na vida é irreversível, nem mesmo uma mentira que se desata numa verdade, mas o que pode ser irreversível é o equilibrar toda uma existência em nós cegos de mentiras. sei que se és engano não é a mim, nem a ti, e assim a mentira é apenas a distância que vai de nós ao mundo.
gostava de te dar estas e outras notícias, falar-te de mim, nestes anos todos de ausência, contar-te da espera, da ilusão, da persistência, ensinar-te talvez esta arte e a da constância, o quanto é doce ser execlusivamente de alguém durante o que resta de uma vida, encontrar um refúgio, depois do desabrigo, e dedicar a vida a torná-lo um lugar seguro. dizer-te como fiquei de longe a olhar-te, em pequenas vagas de amor que raras te chegavam, porque te guardei na distância, como agora te guardo fundo.
dizer-te como me esqueceu já qualquer pluralidade discursiva. eu é uma palavra em desuso no meu mapa de afectos. somos nós e o mundo, um verbo que inventámos para conjugar secretamente no aconchego das noite, entre madrugadas, o verbo que nos diz, como se fosse um nome, embora todos lhe chamem pronome. na verdade, este pequeno mundo nosso é o vasto deserto da alma que se recusa a caminhar só e se semeia noutro. e só pode haver verdade na semente que cai porque a terra a puxa e o corpo da semente se quer dentro.
dizer-te que te guardo a serenidade onde a inquietação me consome, e que por vezes é a serenidade que urde no seu silêncio a inquietação de ti, porque sei que me matas todos os dias um bocadinho, para me deixares intacta. sei da imolação do corpo, para que perdure. sei que se mentes não é a mim, nem a ti, e assim a mentira é apenas a distância que vai de nós ao mundo. já to disse. não te posso dar notícias minhas afinal, porque é certo que fora de ti já não existo.
Uma noite tranquila!