esta noite a cidade não me alimenta, corro o deserto na sua acalmia, cada duna é o lugar do corpo, cada grão o repouso que se procura perto. o deserto é um lume que a noite calou, entre a cidade e o meu mundo há um ténue sinal de fogo, quase extinto, à beira de partir. prevejo paraísos de rosas a sair das minhas mãos, figueiras desertas encrespadas no céu, velhos troncos nus paralelos ao infinito, prevejo-me no centro do meu apogeu, obreira das razões que me reunirão à minha própria pele que anseio reaver, para me declinar pétala a pétala com amor e ternura pelo que (não) fui. esta noite podia até prever-me mas são perigosas as noites rasgadas, sorvem-nos o que nos resto do riso e embrulham-nos na manta fria da madrugada. e esta noite mesmo os barcos se calaram no rio, nem a bruma me devolve à calrividÊncia do sono, podia muito bem ser uma daquelas noites de ser feliz nas profusas razões do corpo, a voz impressa a sépia moderadamente doce e ébria, o lugar da ferida virado para a frescura verde da serra de sarar. poderia mesmo ser uma daquelas noites de nada desejar, uma noite aberta sem varandas nem janelas, a noite das justos, dos que vivem na sua secreta e feliz cegueira. podia ser uma noite de cetim e seda a deslizar no riso da cama, uma tempestade demoradamente chuvosa, haveria até vento para nos recolher, mas a noite é tão secreta e calada que nem a lua se ouve em sua melódica sinfonia de luar. podia mesmo ser uma noite de libações até ao sol nascente nos adormecer as pálpebras por dentro do peito, a cabeça pendente no leito do rio. o rio que até ele hoje se cala, o rio que não tenho na minha aldeia, mas margina perto a minha cidade. poderia ser uma noite pendente, daquelas que estão sempre prestes a acontecer numa vida e nos vêm com a velhice da mente, em desregrados sonhos compensatórios dos neurónios envelhecidos. podia ser, mas essa virá mais tarde, a noite que anuncia os mortos ao trazer os vivos de longa data do fundo seco da memória. ao ressuscitar o brilho que a vida nos deu, os momentos em que fomos pequenos e anónimos deuses no nosso mundo. agora, uma música qualquer roda intermitente, uma e outra vez, qualquer luz pode apagar o pavio da fala, os passos entre portas, fecho ou reabro a noite, abro ou fecho a manhã com este rio lamurioso de palavras e teclas sobre este silêncio agora terreno, materialista, como o de um bar calado de cadeiras sobre as mesas. amanhã tenho de fechar o deserto, é insuportável um deserto sem vento, podiam soprar os ventos de leste, trazer gelo para cobrir a areia, embranquecer tudo, embranquecer-me num sono alvo e profundo em vez desta tempestade apenas dentro, onde o espaço é tão frágil e reduzido. mas há noites assim, caladas como mármore, faustosamente indiferentes e ao longe o lume dourado das estrelas...