sábado, 17 de março de 2007

abrir o dia


soa o dia, primeiro por fora, devagarinho, num som mais forte, depois por dentro, num baque de coração mais aflito. uma águia deixa-nos o peito e parte, nutrida de nós, solta-se o aperto, há um raio de sol vivo a rondar o quarto. são os olhinhos perfeitos dos meus sorrisos, abro-lhes o olhar, bom dia e o abraço acontece, como se fosse o primeiro dado após nascer.

alisar então a superfície do dia, com as mãos serenas, espreguiçar as palavras ainda ensonadas, lentas melodias na pele que sabe o sol no seu peito. desfiar entre mãos como numa prece o magnífico rosário das infinitivas manhãs, maduramente frescas e adolescentes, como ginjas em Abril. tecer e entretecer as palavras que jamais intentarão pintar com realismo as impressões votivas que cada manhã traz, como se em cada recanto de sol me morasse um filho novo, ou um amor anunciado, o néctar suficiente para conseguir sorrir num estrago de alegria.

são manhãs de linho, aninhadas entre os lençóis dos sonhos, quero-as nas minhas mãos para as moldar como monumentos edificados em pracetas de freixos, com bancos de jardim que nos prendem na paisagem. a paisagem que vem pé ante pé anunciar-nos que o olhar tem horizontes maiores, no lugar rotineiro onde parece haver só mais um dia a passar na inconstância dos tempos. as minhas manhãs num arco de flores tecidas com as lianas que me prendem ao mundo e aos outros, a única forma de ser feliz: ter manhãs e ter dentro de si uma trepadeira, muito enleada no coração e muito forte. o coração preso, apertado e solto, nestas horas só minhas, vertidas pela janela, lançadas ao vento, horas alinhavadas na minha tela de sentir.

sentir o pulsar da natureza, edificar paraísos onde há recantos aprazíveis, tecer o conforto da pele na árvore e no seu silêncio, descer até ao mar, sem pressa de o ver chegar, porque já vai dentro, como se a alma fosse um albatrós em círculos perfeitos em volta dos passos, entre curiosas gaivotas tontas de luz. lembrar os campos floridos da infância, o meu Alentejo, a minha infância é uma planície deserta de gente e rosada de flores, uma planura branca, amarela e violácea de flores, correr nelas e resvalar no tempo, encosta abaixo até voltar a ser menina, os pequenos rituais de liberdade intensa, o ópio do sol e a carne tensa, túrgida ao toque da vida. só há duas razões que nos levam a sorrir, assim que o dia nos respira por dentro, é amar a vida ou ter dentro de nós um jardim de amores-perfeitos, de olhos iguais aos nossos e sorrisos de crina ao vento, como os meus meninos, que me fazem nascer de novo criança como eles. por isso vamos, vamos viver as aventuras que o tempo já nos tirou, a mim porque cresci, a eles porque dia a dia vão crescendo.

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Bom Sábado!