sexta-feira, 16 de março de 2007

sonhos felizes com mar


sonhos felizes com mar, fico no cais a ver o Tejo, imagino o rumor da corrente e a brisa como recados da tua boca para a minha, o beijo que desaprendi e sonho, sonho-te aqui. a brisa ondeia a saia, o vento ainda me acaricia o rosto, escolho em cada manhã ser absolutamente feliz em meus passos. passo por estuários teus, e abraço-te límpido e nu em meu regaço. aqueço-me na tua voz distante, a inconclusa fala que se despe na noite, entre tanta voz, tanto atrito na garganta e eu quero-a cristalina e pura sem sargaços mortos arrastados pela cegueira das correntes que te amarrarm. detenho-me em cada palavra e bebo-a como café da manhã, as tuas palavras fervem nos meus lábios antes de me queimarem o peito, estou evanescente de sol e saborosa poesia e sonho coisas felizes com mar, não sei, não sei, o preço a pagar em cada rendição, a muralha abate-se o mar avança, inunda, clarifica o cais confuso, arrasta cadeiras e mesas, ficamos sós no cais molhado, frescos, frescos, vivos, neste sol penetrante. vamos. não me digas onde, diz apenas, vamos. sonhos felizes com mar, certezas na incerta permanência das mãos, dizer tudo que a vontade diz, desatar a corrente, agudizar a voz, um murmúrio que passa pela espinha e nos vibra gestos profundos de busca, este banho pela manhã, o toque frio e fresco que nos revigora, dois corpos despertos uma mesma foz, todo o mar e seu léxico, nosso, nosso, todas as manhãs este aperto de olhos, profunda raiz da alma enlaçada, entrelaçada a erva trepadeira, o mato, a mata, a vida, nós, tudo arde entre portas. entra comigo na floresta, duas velhas árvores com a boca do vento no lugar da fala.
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Bom dia!