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"Ela dorme em seu leito, uma nudez de rosa e fresco pólen intocado, as cortinas da alma a adejar, corridas ao vento da noite em Maio. O seu espírito está ausente, ela não sonha, existe em suspenso no limbo da ausência de sensações. Sumptuoso o palácio dos deuses, deleite puro o dossel de Vénus onde a bela Psyché espera a penumbra da noite que se agiganta. Entre sedas e brocados, a pele amornece ungida e perfumada para o amor. O jogo antigo, que ela já não precisa mimar. Ele vem das cortinas ondeantes e sobre ela se debruça devagar. Fingindo dormir, ela deixa-se ficar, irrelevante o toque e porém um arrepio que lhe estremece o corpo ao passar. Ele finge distracção e toca-a como se todo o toque fosse ocasional e possível sem no entanto se materializar. A pulsão distraída que se imprime no passar das mãos pelo pano de cetim ou de tafetá, pelo arminho ou simples pano cru. E porém cada tecido revela sensualidades novas. Eros sabe-o, exímio mestre da sensação. Mas Eros também inventa a sensação, refina-a, torna-a sublime. E ela deixa-se arrancar ao sono, ou finge que de lá vem, com murmúrios soltos de prazer. Psyché nada vê. Apenas sente que vê o que sente que sente. Seus olhos tapados por desígnios divinos encobrem a visão do corpo másculo, adivinhadamente soberbo, macio, talvez alourado, musculado, brando e belo e para Psyché a indução do prazer não lhe vem do olhar, mas tão só das sinestesias outras, a doçura da pele, o odor que o olfacto capta, o som dos mumúrios de prazer do amante, a textura macia da pele, tão macia sob os seus dedos de loba, mas sobreudo, a sugestão do prazer nasce da pele que sente colada à dele, dos beijos cegos, do odear dos corpos em sábias posturas. Uma nova e poderosa sensação toma por inteito a vontade de Psyché, ao sentir-lhe a presença do membro contra o seu sexo. Mas Eros não se lança na cruzada do assalto. Permanece ali, na entrada imortal do prazer, numa sugestão de entrega, uma refrega quase animal, que ela sente na cegueira dos olhos como uma evasão quase total da mente, um eclipse do corpo, como se este voasse para muito longe de si e lhe ficasse apenas aquela sensação poderosa, que ele não parasse... E Eros não tem pressa, as suas noites são noites de amar, Eros nasceu de Vénus, as suas formas foram feitas para o amor, o seu corpo enrijesse em cada nova busca. Então ela tacteia o mundo em redor, e num gesto suave empurra-o de si, querendo agora assumir a cimeira do corpo, Psyché descobre uma animalidade que não tinha, normalmente passiva na sua condição de vendada. Sobe sobre o corpo dele, as mãos tacteiam-lho para o decorar, músculo a músculo, e detém-se no peito, para lho beijar, em cada centímetro de pura adoração. Mergulha uma e outra vez no seu pescoço, bebe-lhe o odor, sente-se estranhamente sensitiva, descobrindo uma volúpia nova em cada pequena transgressão. Morde-o delicadamente, enquanto comanda o jogo dos sexos, é ela agora que se esgrima delicadamente pelo seu membro na busca do próprio prazer. Eros sente a inversão do jogo e tem por momentos vontade de ser ela e de conhecer por dentro as voltas do seu prazer. Fecha os olhos, na quietude de ser apenas objecto de adoração, mordendo do lábios para fingir uma passividade quase indiferente que dificilmente teria, nunca antes Psyché se revelara assim ousada, tensa, intensa, entregue ao tear de novas sensações... Então..."
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__ Estás cansado de ler? Está assim tão má a minha história? Cordel, eu sei... __ murmurou ela que lhe estivera sempre a espiar os movimentos.
__ Não, querida, não estou cansado de ler a tua história. Pelo contrário. Quero ser a tua história. Quero estar na tua história. Quero-te Psyché, hoje. Assim, ousada como ela. Quero-te agora.
__ Agora mesmo? E a revisão tipográfica? O editor amanhã...
__ Ao diabo a revisão tipográfica, eu leio o resto depois, agora quero rever o teu corpo, palmo a palmo e que me revejas o meu. Vamos, anda ser como ela, tu a criaste assim...__ E a fita para os olhos? Dúvida: terá sido desta cena mitológica que nasceram as sessões de "bondage"? __ o seu riso nervoso a morrer no beijo e o silêncio a nascer na sala. Não havia resposta. A história continuava agora no mundo dos homens que apenas no amor conseguem tocar a fímbria dos deuses. A ambrósia e o néctar da alma.
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Boa noite!
Talvez continue...