
Sentimos o tempo sobre os ombros, em tantas noites o vestimos e o despimos, lhe sentimos o peso, ou a leveza... Envelhecemos por dentro de uma enorme vontade de viver. O tempo é o lugar do encontro com as razões da busca, desconhecidas razões alquímicas, feromonas invisíveis tão fortes que ultrapassam a fibra da alma.
Esta noite revejo arcos erguidos em noites idas, lugares de passagem para o outro lado, pele na pele, olhos nos olhos, palavra sobre palavra, empilhadas razões num dominó de dependências voluntárias, não escolhidas, mas desejadas, ansiadas, partilhadas, arrancadas a uma solidão visceral.
A busca das mãos, desde o primeiro dia, a vontade das mãos, o medo do vazio, sem outras mãos, o escuro que nos aperta na forja da existência. Para onde caminha a vida com esta voracidade, para que nos arrasta sós, porquê únicos nesta aparição espectral da nossa existência?
Precisamos do outro, para nos sentirmos vinculados na nossa passagem pela vida. Mas não somos nós que tomamos a decisão da escolha. Somos eleitos, elegemos a nossa unicidade na eleição que fazemos e tudo é uma reciprocidade ocasional.
Arcos de amar. Lugares de passagem, inebriantes momentos destapados só pela memória das palavras em baús de arrecadar. O pó dourado de cada momento, a alegria inusitada, a áurea que transportamos a caminho do amor, sempre a caminho do amor, e porém em círculos repetidos no mesmo lugar, mas mais concêntricos em direcção ao corpo.
Arcos, lugares de passagem para o encontro que sempre nos ocorre mais perto. No passar dos anos, o mesmo cálice, gota a gota, às vezes vazio, outras transbordante de paixão e sede do outro, mas único, e mais nenhum corpo nos mata a sede. A proximidade é tanta que o mundo deixa de nos pertencer, pela metade que doamos ao outro. Uma visão sedutora da eternidade. O desejo do encontro, no tempo, no espaço, no corpo, na boca, nas palavras.
Todos os dias amamos mais um pouco o outro lado da existência. E o nosso mundo é completo. Lotação esgotada, e porém só dois. Companheiro de viagem. Histórias banais. E as histórias banais não merecem ser contadas. Não têm princípio, nem meio, nem fim, apenas acontecem. Vive-se com o olhar preso no distante que é o perto, tão perto que tudo conflui num mesmo prazer que não conto, porque as palavras não explicam as sensações. Não bastam. São apenas colunas frágeis que sustentam os arcos do tempo, e só o corpo guarda por dentro o seu doce segredo.
Obrigada pelo mote!