Hoje não sou a cal da parede a esboroar-se, porque ainda não fizeste o catre para a minha memória se deitar contigo e despertar na tua. Mas amanhã todas as portas que abrires rangerão como os meus dentes, o hálito da chaminé será de fumo como o dos cigarros que deixei de fumar, mas ainda se me penduram dos dedos, o soalho terá gravado o vinil dos meus passos e toda a casa terá o meu riso espalhado pelas paredes. não é em vão que os olhos se demoram nos objectos e que os objectos se demoram em nós, como se fossem pessoas e estivessem ali para nos assombrar. impossível deixar de sintetizar as impressões de pessoas com as pessoas que levamos impressas, porque todas são de tinta e nos escrevem recados distantes, uns numa tela ao longe, outros no recolhimento da pele. e é assim que espantamos uns fantasmas, para entrarem outros, lentamente, como numa mudança de turno, em que se misturam num só espaço os que vão e os que ficam, os que entretanto mudam de sombra porque na verdade são idênticas e equidistantes. e eu que nunca fui onde não estiveste, atravessei todo o dia pelo atalho da tua voz, imaginando ouvir os galos do teu quintal, irrequietos seres alheios à passagem das horas, um mero referencial, os galos, de que estamos onde nunca estivemos, como um novelo esguio rente ao olhar. Desenrolo-o preso na vontade de te falar e enrolo-o num silêncio de tochas ao entardecer, mas ivariavelmente acabo por atar-me nele para me amordaçar, evitando escrever no quadro o teu nome e debaixo dele as palavras "amo-te". e posto que foste vontade, amanhã e durante o mundo, assombrarás com as tuas cores o sítio onde não te procurei sequer matar muito.
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Agora sim, até amanhã!