Aqui o abrigo da noite, aqui o raro incenso em volutas aromáticas, aqui a volúpia de amar. Aqui os teus dedos me ausentam do corpo. Leves, leves toques que te penso sem densidade maior do que um pousar ausente, o simples pensamento de sentir-te e a carne sente-te. Este o santuário de todas as orações celebradas em murmúrios inaudíveis, celestiais coros que enchem a nave do corpo. Neste cântico apenas, só depois de todas as luzes do mundo se apagarem, é que chego ao quarto, onde penduraste, bem alto o teu fervor. Penso-te no recolhimento do corpo. Também tu procuras o silêncio e a penumbra, talvez um cigarro enquanto esperas e outro e outro. A tenda armada no deserto, ninguém lá dentro, todas as noites o quarto te surpreeende, nunca se repete o mesmo tempo, a mesma luz, o mesmo lugar do pensamento. Hoje na cidade, uma mansarda a cair por dentro, a vergar-se para dentro, a ruir sobre si mesma, atravessada por mil e um comboios apressados, que deixam lancinantes riscos nas paredes. Aqui mesmo nos amaremos, de passagem, apressados, entre dois comboios e a sineta de outro, anunciando a cancela fechada. Aqui mesmo nos repetimos, cada paragem, entramos e saímos num novo comboio com o mesmo destino, nunca nos cansamos de chegar. Imagino-te na cadência dos solavancos, estás deitado, de frente para o olhar triste do tecto e eu volto da rua, finjo que não te esperava e dispo-me por dentro para melhor me contemplares. Tu finges que regressas ao meu corpo, de onde nunca saíste, a mão possessiva pousa-me no ventre, queres-me de novo, cada comboio parte sempre para o presente e eu vou contigo.
O nosso amor é louco, não tem tecto nem paredes, nem sequer um manto estampado no corpo, apenas faúlhas somos, no vento em rodopio a fricção atómica de um momento a ocasional rota de dois cometas, é assim que nos amamos, ocasionalmente entre mãos, entre coxas, entre espelhos, num universo infinito às vezes como anjos, como seráficos infantes, como lendas, como heróis, às vezes como deuses, outras como dois estranhos, numa esquina na viela do luar, ou só como simples mortais sem mais posse do que a da pele que se quer dar.
Entrei no quarto presa já na intensidade da tua espera. Abre-se a voragem a nossos pés. Passa entre nós um comboio, a pele rasga-se no vértice vertiginoso do sonho. Atravessados na linha, o suicídio do amor ocorre dentro, eu esqueço-me de quem sou, quando te sou pele e prazer; tu passas dentro de mim sem pressa de medir o tempo de ficar. A noite na cidade é um néon intermitente. O quarto a cair sobre nós e a inundar-nos da pressa de ficar para sempre..
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