terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

meia-noite e o fogo



Arrasto-te para o cadeirão junto à lareira, balanças o corpo nas centelhas caprichosas das chamas, numa zona onde os nossos olhos convergem sem fala. É quase meia-noite e nós neste limbo da ternura. Busco no teu colo a calma que me falta nestas noites do campo, onde o assutador silêncio dos bichos se instala em redor de nós. Tu segues-me o pensamento na cadência do fogo, a fala incerta e crepitante que nos une num mesmo abraço, é tão raro haver dentro de nós tamanha paz, a palma da tua mão a encontrar a chama, és um náufrago de luz e a chama recebe-te o vagabundear do pensamentos. Meia-noite e o meu coração não pára de bater, são dois agora que se entorpecem no silêncio, os nossos corações adormecem-se nas chamas, amolecem em uivos de pele que só nós sabemos ouvir. Chispas rolam e desfazem-se no ar como runas a estalar de profecias profundas e eu, que sou cega para as coisas do mundo, tomo em mim a tua mão e leio-te os sulcos profundos da tua vida, uma a uma vejo as tuas áureas sobrepostas em camadas ainda em chamas. Há uma linha ténue que te atravessa em diagonal, gostava de ser eu a cruzar a tua vida numa espécie de linha apagada, invisível a olho nu, mas paralela e constante. É meia-noite em ponto e eu quero ser a linha que te atravessa as noites de paz e as de inquietação ou sofrimento, sopro-to ao ouvido, lentamente, numa língua de fogo que se introduz pelos tímpanos. Silêncio. A tua voz sabe-me a uma oração suspensa numa nuvem de algodão. Dizes-me o que me espera o coração. E então as brasas avivam-se, há um hálito tenebroso que vem da noite, por dentro da chaminé, uma golfada de vento que nos faz sentir pequenos, ínfimos seres impotentes, ante o rumor inóspito da natureza. Mexes nas brasas, meia-noite já passada e o meu ouvido segue o que me diz o teu peito, tanta paz, um bem estar que não se iguala a nada, estamos juntos e o mundo pára. Queremos a noite rigorosa e fria, queremos a chama ardente, a pele em uivos e silvos de serpente. Pouco a pouco, os olhos deixam o feitiço das chamas e aprofundam-se na íris, só existem os olhos dentro dos olhos. Somos um, não precisamos de falar para o saber. Os lábios buscam-se irreflectidos, é preciso que se respeite o silêncio dos lábios que se buscam e das línguas em fogo, rumorosas foices ceifando o caminho de dentro. Ficamos assim, aparados como franjas suspensas no beijo. Passa tanto da meia noite e nós beijamo-nos de novo, agora o corpo todo se une para o beijo, beijam-se as mãos, o pescoço, os seios latejam no beijo, o teu peito aperta-me no beijo, as mãos percorrem as coxas, as coxas apertam as mãos ou abrem-se ofertantes ao avanço do beijo. Muito depois da meia-noite, o beijo toma conta de todo o corpo e eu sento-me de frente para ti, os sexos num beijo quase indolente, sem pressa de deixar de ser apenas beijo, estamos ali, o toque é tão doce como o calor das chamas, agora só uma chama nos envolve e essa maior que o tempo. A meia noite já vai longe e o beijo a tomar conta dos corpos, sem pressa de nos engolirmos cada vez mais dentro, mais dentro, sempre que for meia-noite paramos o relógio num beijo pendular no sentido contrário ao dos ponteiros e repetimos o beijo como se fosse sempre Inverno e tu me acalmasses todos os meus medos, como se a nossa vida decorresse no reerso das noites, no inverso das chamas, no interior profundo do beijo dos corpos. Amo-te, é certo.