Recordo o vestido branco da minha juventude, recordo-o em forma de Marylin a dançar no AdLib e na Primorosa com um John Travolta que era estudante de Medicina, um moço açoriano instalado no Pio XIII, dono de um poderoso corpo de Adão e de um Renault 5 novinho em folha que eu ajudei a estrear e o pai lhe mandou de avião. Porém, mais que o carro novo e o meu ilhéu tudo que recordo desse Verão é a magia do meu vestido branco, e o apogeu e miséria do meu visual arrojado. Recordo-me quando o usei a primeira vez, no baile da minha residência universitária, rigidamente regida pela D. São, coxa, e pela irmã, ambas solteiras e vigilantes. Graças a elas, os rapazes não subiam aos nossos quartos e pronto.
A minha mãe insistira em fazer-me o vestido branco pelo molde de outro que a filha de uma vizinha tinha comparado numa boutique em Beja. Nem sempre a minha mãe se saía bem nos vestidos que me fazia e havia em mim uma espécie de fome de roupas de compra, mas aquele saiu logo perfeito, sem costas, moldando os seios dentro de dois triângulos que atavam ao pescoço através de um laço e depois rodado a partir da cintura. Vesti-o na noite do baile, para o qual tinha convidado dois estudantes de Psicologia da minha Faculdade. Um deles, baixo, moreno, bem musculado, um transmontano de pescoço curto e olhar insinuante era o meu cavaleiro andante, que passava comigo todas as horas de estudo, num silêncio que partilhávamos na esplanada da piscina do Campo Grande. Uma espécie de namorado, fã do Jacques Lacan, de Piaget, muito saussuriano, freudiano, analítico. Poucos dias antes do baile, analisou em detalhe a relação para concluir que não lhe dizia muito e achou por bem deixarmos de nos seguirmos um ao outro como náufragos provincianos, falhos de dinheiro e de calor familiar. Como não tinha mais ninguém a quem convidar, lá foi ele ao meu baile, acompanhado pelo fiel Caldas que vinha dessa bela terra e era bexigoso, como um pneu furado. A noite não me prometia muito, a imaginar sem emoção o meu estudante de psicologia a fazer perguntas lúbricas às outras moças estudantes e eu a ver sentada a um canto...
Mas então sucedeu o milagre do meu vestido branco. No meu turno à porta, coube-me receber um grupo de estudantes do Pio XIII, a residência universitária dos meninos bem. Lá vinha o meu vistosos açoriano, com o seu sorriso perfeito e faminto. Apresentou-se como futuro cirurgião famoso, o que não duvidei viesse a ser, mas achei piada, e apresentei-me como futura escritora famosa. Não foi preciso mais para irmos para a pista com um sorriso de arrasar o mundo, envoltos numa dança que fez parar os olhares, o meu futuro cirurgião era alto e desempoeirado na dança, o príncipe que se espera encontrar aos 19 anos, mesmo com um vestido feito à mão pela mãe. Eu havia começado a dançar lá na terra, ainda pequenina, ele pelos vistos era um Valentino e nós que somos a atracção do baile. Eu deixo-me conduzir, sou leve nos seus braços, ele sabe agradar e seduzir, nunca me lembro de ter dançado assim, como se tivesse dentro do Fame, ou se fosse a Olívia Newton John herself. E que dizer do olhar faminto do meu transmontano? Do sentido de posse que o sangue íbérico lhe despertou, a ponto de me enlaçar a caminho de uma bebida e de me levar também para a pista, desajeitado, com o açoriano a estudar a anatomia da cena, algo lhe corria mal na vida, não era costume, mas depois eu já não sabia bem o que queria, e ele veio de novo com uma bebida, aproveitando o intervalo da música para me raptar dali. E falámos, falámos, tantos projectos, tantas ilusões, mas tudo tão distante, como se a vida de estudante fosse eterna e o fim do curso nunca mais viesse... Pouco profundo, o moço não entendia a ironia mais simples, nem tinha lido nenhum poeta, sequer lera os Maias, nunca ouvira falar em um só filósofo... mas eis-me no fim da noite apaixonada...
Despedimo-nos para um encontro no dia seguinte e eu subi para o meu quarto. Mas depois, foi o bom e o bonito. O meu transmontano e o Caldas tinham bebido demais e não arredavam pé da festa sem falar com a Aninhas, eu. Bate-me a D. São à porta do quarto para eu ir controlar os meus convidados e convidá-los agora a sair... foi duro convencê-los, só riam, riam, e eu ria, ria, como podemos ser tão cristalinamente felizes aos dezanove anos? Prometi-lhe que voltaria a estudar com eles e a partilhar bitoques quando fechasse a cantina. E lá se foram. E tudo isto por causa do meu vestido branco...
Claro que passei o resto do ano lectivo, Junho e Julho, a dançar à noite com o açoriano em discotecas caras e a estudar de dia com o transmontano nos locais do costume. Mas nada em nenhum avançava mais do que aquilo. O primeiro era muito conservador e respeitava-me. O segundo vivia para o estudo e tolerava-me à beira do seu mundo. Chegou o fim do ano lectivo e as coisas começavam a aquecer com o açoriano, no carro novo que fui com ele buscar à alfândega. Jamais passei momentos tão ardentes dentro de um carro, um composto vivo de beijos, língua, apalpões, suspiros, toques que me enlouqueciam, mas nada mais que isso. Numa dessas noites anunciou-me a partida próxima. Eu ia ficar em Lisboa todo o Verão, num curso da Alliance e pedi-lhe que ficasse também mais uns dias. Que não, o pai não deixava. Pedi, supliquei, só mais uns dias, que ficasse comigo, custava-me separar-me daquele corpo, como me custaria separar-me do intelecto do transmontano, se tivesse de ser. Prometeu que ficava, combinámos idas à pria, passeios, uma passagem na minha terra, exultámos com a liberdade de sermos jovens e estarmos sós numa cidade estranha, mas no dia aprazado para a partida o avião levantou voo e eu vi-o do Campo Grande, sem saber que ele ia lá. Mas ia...
Soube mais tarde por uma conterrânea sua que era da oligarquia local e tinha casamento marcado com uma prometida para dali a um ano. Nessa altura devo ter sofrido perdidamente, talvez modicamente, já não posso precisar, porque me ficou por mais uns dias o transmontano, mais autónomo e senhor de uma vontade forte. Mas o intelecto de um não apagava a saudade do corpo do outro e o tempo de espera deve ter-me apaertado o coração.
No início do ano lectivo seguinte, o meu açoriano regressa anelante e saudoso depois de uma só cartinha a desculpar-se do abandono à traição. Combinamos uma saída de grupo e eu levo-o para os bares manhosos do Cais do Sodré, muito em voga pela boémia estudantil. Desconforto e espanto dos moços do Pio XIII. mas foi ali que, com o meu vestido branco, pus de rastos o pobre moço, futuro cirurgião famoso, marido venturoso de uma esposa perfeita, cantando-lhas todas e mostrando-lhe o quanto estava já delineada a sua vida inútil e perfeita de adoração ao deus dinheiro e desprezivamente vim-me embora com as minhas amigas, deixando-os entregues às putas. Já nessa altura eu era lixada. Nunca mais voltámos a saber um do outro. Espero que seja um cirurgião para quem o dinheiro seja secundário e tenha já conseguido ler alguns dos bons escritores e pensadores de que eu lhe falava e ele desprezava. Curiosamente foi o transmontano, o meu intelecto, quem veio a subjugar-se ao poder, a que ainda hoje está agarrado. E quem tal diria? E eu continuo a partilhar bitoques sempre que posso e a gostar do silêncio a dois, em divagações pelo pensamento dos que construiram o saber... mas não sou uma escritora famosa, embora faça o gosto ao dedo e não me prive de escrever. Registo estes momentos para que não se me percam, na arrumação apressada da memória. O meu vestido branco... lembrei-me dele quando ouvi hoje a Gloria Ganner na rádio "I will survive..." Foi um Verão terrível, ao qual sobrevivi, como sobrevivemos a tudo que nos parece terrível. Não houve depois outro tempo assim. Já éramos o que somos hoje, e ainda não sabíamos...
Boa noite tardia!