dantes era só eu e o exílio
e as palavras não tocavam na pele
em pronomes voluptuosos
como "nós" e "tu"
.
havia um lugar perdido no mapa
e nele eu era um ponto
e tu outro a meio do caminho
mas todos os carreiros
levavam ao paraíso azul
na intersecção de vagos sonhos
.
agora eu regressei ao mundo
e os nossos voos são rasantes
e profundos
tu perdeste as muralhas
no deserto eu não tenho lugar seguro
é o exílio em campo aberto
um outro mapa mais próximo e combustível
e esta proximidade é sufocante
a respiração consome-nos a luz
que dantes era distante
e agora entre as artérias se produz
.
mas diz-me meu amor,
se nesta nova geografia das palavras
onde as andorinhas já não se movem
mas onde as gaivotas nos cruzam a viagem
diz-me se neste exílio dos corpos
ainda é a tua mão que me conduz...
.
diz-me se queres exilar-te
num nimbo de aves
mais inacessível e mais volátil
diz-me se queres voltar para lá
para o coração febril das árvores
altos nas suas copas e vigilantes
ficaremos sós sóbrios e silentes
para que o mar não nos alcance
.