segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

lugares


há manhãs de tanto silêncio, que a intemporalidade da existência me visita e fica. gosto de sair do meu corpo e sentir apenas o que me rodeia, exactamente igual em todos os tempos, as mesmas pedras, as mesmas árvores, apenas as vozes (que nem sequer ouço) poderão ser outras. o vento agita fortemente as árvores do pinhal, num concerto que outros ouviam, dia após dia, na inquietação de cada manhã. como o tempo se demora por aqui em cada folha, em cada ramo, em cada pássaro, em cada passo que se dá... penso que o meu universo não é deste meu presente, sinto-me vasta como um delta desenhado no rio imenso que corre o tempo. nestes momentos existem-me as pessoas de agora, as pessoas de outros tempos, e as pessoas de sempre. todas me habitam nesta intemporalidade, mesmo as que não conheci, conhecendo, sabendo-as como parte íntegra dos lugares. o que me leva a concluir que nós somos lugares, sim os lugares que fomos no nosso espaço, os lugares que fomos dos outros e os outros que foram lugares nossos... e isto pode explicar muita coisa, nesta manhã de profundo silêncio. pode explicar o próprio mundo, pode explicar a existência humana, a saudade, a prevalência de sentimentos, a persistência de memórias e pessoas no nosso mundo. tudo isto por causa dos lugares que somos e de quem os vive como nós. lugares que nos acolhem dentro com a ternura de uma manta, lugares que nos cobrem, doem, fazem sofrer, mas vibram emoções como se fossem rios de caudal profuso, entre margens ardentes, escarpas, lagos, percursos tranquilos. e nesta babel em que vivemos, um lugar assim é uma palavra quente, que se entende em todas as línguas porque não usa fonemas nem consoantes, mas a linguagem dos lugares apenas. como este onde as árvores e os montes, a bruma ardente, a quietude das pedras me fala de ti. como poderia deixar de ser assim? eu sou um lugar, entendes? os lugares não mudam, ou não serão lugares, mas espaços desabrigados, sujeitos ao desconforto das mudanças do mundo...