segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

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abro a aorta que dá para o coração e o quarto amornecido com a penumbra dos teus silentes cílios, debruçados sobre o teu rosto, pingos de sangue no lugar onde as aves te pousam, e rasgam, rasgam o fundo da pele, nas órbitas vazias da mágoa. não sei quem és quando te ausentas, o quarto inundado de ti e eu não entro, o meu corpo de fora, apenas o meu olhar fetal te contempla, esperando que me abras a respiração. a tarde parou de repente, à porta do quarto, é possível que a tarde nunca mais entre na casa da noite, o mármore a encher a tarde e tu mudo, ausente num mundo que desconheço.
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às vezes o quarto exulta de risos e tu prendes-me no laço do sorriso como se fosse um pássaro preso em pleno voo e eu entro, entro no teu círculo, esqueço que sou eu que te esculpo com o barro nas unhas, ao escavar dentro de mim o próprio desejo. por vezes estás cá fora de mim e os olhos podem digladiar-se no mesmo presente, no mesmo gozo, na ponta de um sofá de ocasião, comprado para um ocasional momento de doçura, estampado no tecido gasto.
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mas tudo que te devo é sempre a espera por construir dentro dos minutos, a escada desceu, tu hesitas em escalar os riscos do meu rosto, há corpos que te dizem perfeitos o que da vida colhes de esquecimento. o amor que fazemos entre pulsos sucede outro amor que glorificamos no silêncio. não saberei dizer em qual deles te prendo quando alquímicas razões do teu corpo te descobrem na pele demorada nos meus dedos.
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E é isto que a tarde me diz, enquanto a chuva me prende dentro, cada vez mais dentro de ti, a aorta entreaberta para o teu coração, não sei se entre, diz-me se a chuva te guarda no sofá do riso a vontade de permanecer dentro da imensidão do nosso mundo, onde cada pingo a romper o silêncio nos mergulha mais e mais na profundidade do corpo.
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diz-me como pintas hoje a chuva em acordes foscos de silêncio...
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