às vezes há este frio apagado
e eu sem portas nem janelas
é como uma roseira sem as rosas
um pau de enxertar a maciera
seco depurado já sem folhas
do Outono que o antecedeu
às vezes não amorneço
nem me enxerto
na ramagem densa do desejo
despossuída e vaga
por um toque estremecido
que não vejo
às vezes a vida descalça-me
tira-me a roupa, desampara-me
e por mais que busque ume verdade
que não falhe, um vime entrançado
em forte malha
mais me impermaneço na crença
de que a vida um dia me ampare
tu, existes, mas não estás
tu és, mas não existes
tu precisas de mim para existir
dentro de mim
mas não precisas de mim para existir
nasces do meu parto doloroso
das palavras em espúrias madrugadas
não me nomeias, não me lavas
os olhos entrincheirados
amores poucos tive
não sei como pode o amor
ser um monte de palavras saídas
de um rosto opaco
não sei se sai amor de onde o acho
não sei achar o amor sem estas achas
que tanto te acendo
e o lume afinal é meu
e o lume está trémulo e constragido
incomburente e incombustível
falta-me não sei o quê nem quando
não sei onde pasta o sol nem onde acende
o trigo e o girassol leviano
tu só estás quando estás na minha mão
abro-a e há uma linha de indecisão
sigo-a e não leva ao lago nem à lava
que dantes nos banhava o coração
tenho medo de me perder dentro de ti
não sei por onde entrei, nem conheço
a saída, fiquei só num lugar semântico
e a vida não corre na veia das palavras
tudo que não me fazes sentir
porque de longe te asfaltas
para mais perto me caminhares
são ruivas rosas secas pela geada...
não as vejo minhas, como poderei
ampará-las?