vozes cruzadas na noite, o quarto amordaçado, as palavras a recolherem a solidão para dentro. estamos dentro de um quarto mudo. os lençóis amarfanhados e ainda quentes lembram o remoinho de uma nebulosa perdida no tempo, a luz já extinta e ainda o luminoso brilho. todas as distâncias banidas no quarto agora estremunhado de sono. estamos frente a frente num lugar apático, onde nos repetimos noite após noite, com os olhos hirtos de estátuas vivas. nas nossas mãos existe um tempo único e profundo, escavado dentro do coração, um fogo suave e manso nas veias, nas nossas mãos existe a pujança da vida que quer permanecer. somos pequenos para tudo que ainda esperamos da exitência. tomamos o poema num cálice, delicadamente o levamos ao lábios como o fogo da vida. ficamos em redor da palavra amor, como ficaríamos sentados frente a uma lareira no Inverno. eu atiço o fogo, dispo o quarto, deposito a palavra amor num altar de rosas e delicadamente adoço os teus lábios. ferves de razões, abraçamos luar e só o luar nos responde. mas eu preciso de te beijar a alma devagarinho todas as noites. preciso de te ser mulher e de reinventar contigo todos os dias o mesmo sonho... o quarto um dia nomeia-nos em silêncio e nós saberemos que não foi inútil deixar o quarto acontecer.
Dorme bem, meu doce!
Dorme bem, meu doce!