quinta-feira, 30 de agosto de 2007


vieram sons do passado
melodias que me obrigaram
a permanecer de olhos fechados

foi como se tudo tivesse andado para trás
e tu tivesses acabado de chegar
num bailado de palavras presas num
corpo em riso

não te saltava ao olhar
porque não to via
não me ondeava no teu corpo
porque estavas longe
não te despia porque as minhas mãos
não te alcançavam
talvez houvesse um oceano

mas enrubescia
o coração palpitava
e o riso fumegava entre nós
nada era sério
só os silêncios nos falavam
e diziam da vontade de dar tudo

mas o pudor e a censura
vinham contigo lado a lado
o despojo fervilhava em segredo
a languidez do coração
a poesia incerta
em doses sempre maiores
que os rabiscos da mão


e mesmo nas tuas furtivas vindas
a uma janela namoradeira
onde brincávamos com o fogo
sem sequer dizermos coisas muito profundas
ou nos despirmos na fala
mesmo nesses momentos
o meu coração exultava por dentro
de um relógio acelerad0

pergunto-me
o que fazemos agora neste gelo
rodeados
de um incêndio serrado, sem água para
detê-lo

separados
por esta união desmedida
funcionamos juntos
como anéis de uma cadeia partida

diz-me que faremos
desta nossa ilha de eterna bonança
do chapéu que já tiraste
e da lancha que se despenha nas rochas
e já não te espera

diz-me se o teu corpo a esta hora me recebe
e como me entrança
nas velhas manhãs enamoradas
que agora são lugar de flores e de beijos brandos
de um despertar sem ânsia
apenas com o calor deixado pelo
corpo do outro nos ombros

gostava de ouvir-te falar
de todas as palavras
que ainda lembras

queria ter-te na incisão
da minha cicatriz
na boca que perdura aberta
queria a tua língua em carícia nubente
e devassa, gostava que me procriasses de novo
para te nascer dentro um novo caudal de
riso e de intemperança

mas somos outros
e só a mudança nos permanece
eu espero-te na minha teia de quimeras
tu revolves o baú em busca de novas
máscaras e mostras-me cada vez mais
o teu belo rosto

acertamos espadas e sabres
em puro gozo
eu manipulo-te em vão
tu manipulas-me e eu deixo
que a tua longa mão me alcance
e me constrinja de dor e de desgosto
de ciúme ou de desejo

bebo em teu louvor
o vinho precioso do meu corpo
amanho-me no leito para teus afagos doces
acabo a ingerir a tua alma em pequenos sorvos
e a exultar de um volúpia
olorosa e fértil
sitiada na margem real do teu corpo

mas faltas-me
faltas-me muito
em redor da cinta
o teu braço nunca neutro
falta-me a cereja do teu beijo
a nuca onde aninho o meu gesto
faltas-me em forma de riso
despenteado, falta-me provocar-te
fugir-te nas ameias do nosso castelo
rebolar contigo nos seixos de um rio
qualquer
que seja radioso, radiante e belo
como são os teus olhos, meu amor,
que me chegaste num sonho
de chapéu descido sobre o rosto
e me deitas agora sob o teu céu aberto
silente e fogoso és agora
quando me cobres as madrugada frias
com um delicioso degelo
de profundas, lépidas alegrias
enroladas num simples verso...