Cidade Amarela
1939 - 1975
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a poesia é o palco da vida
o dramaturgo encena os sentimentos
com uma espécie de sonolência lenta nos sentidos
em que o mundo é um filme mudo numa tela
e as palavras representam as actrizes belas
nas suas posturas de estrelas
.
a poesia é um copo de rum
que ingeres quando chegas a casa e pensas que já
terminaste o teu dia mas descobres que tens tudo por fazer
e não sabes nem a cor nem o volume nem a forma
do que te faz falta
.
a poesia toma o lugar do morto
enquanto guias só no trânsito da manhã
despertou-te a poesia das aves e dos peixes cuja
possível translucidez te aflige
despertou-te a tela azul do firmamento
onde sabes que se encontra
uma rosa dos ventos
mas o teu rumo está traçado para o
teu emprego
.
a poesia almoça contigo uma sandes no gabinete
ou fica em pé a teu lado no snack da esquina
enquanto imaginas que os corpos iguais aos teus
se combinam com o teu numa cadeia de sorrisos
e de fascínios
.
a poesia é invisível como tu
numa cidade onde se cruzam rumos e destinos
ninguém vê a tua poesia interior
cada qual faz dos seus passos únicos
e ninguém quer saber se a nuvem que te
acompanha tem fina forma de flor
ou de rude castanha
.
não, não te percas na poesia dos rostos
cada um que passa leva o seu mundo às costas
tem fixações, está programado para um passo após outro
jamais olhará como tu os arbustos do parque
e tu nunca saberás o que cada folha acrescenta em poesia
à memória poética da tua outra metade
.
sim, a poesia anda pelas ruas,
não duvides. cada olhar encerra a mísera ou prodigiosa
poesia da existência
nem todos ainda lhe sabem os segredos
nem todos pensam nas palavras que levam entre os dedos
e é isso que os distingue dos poetas
aqueles que param à beira das coisas e lhes dão
nomes, constrõem o invisível em volta delas
casam-nas com as águas que fundas levam na alma
.
a poesia é este olhar mais longo
que elege as coisas e as pessoas e os sentimentos
para o lugar de actores
a representarem papéis de si mesmos
a poesia é a tela dos sentidos
.
mas não é o amor, não confundas os motivos
o amor borda-se com os olhos e as mãos
a poesia borda-se com o silêncio de alguém
que amando ou não o mundo lhe sabe dar
entre palavras um percurso alternativo...
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