segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Noite de Lua Cheia (outra)

A noite está bela demais para se fechar assim de repente, como um candeeiro. Tal como a vida... E hoje, não sei que te diga mais. Numa noite assim, há miríades de verdades que nos passam pela cabeça. Tantas como estrelas há no céu. Desejamos ser mais do que o presente, mais do que o punhado de nada que temos entre mãos. Soltamos caravelas no céu, signos de amor e de viagem. Imaginamos laranjais plantados na zona da infância, lembramos noites iguais na adolescência, evocamos o amor, a doce lenda... Em noites como esta eleva-se no ar uma borboleta luminosa e nós vamos nela, na sua asa de prata. Em noites como esta, dormir é não partir com a noite para o lado de lá da existência.
Esta noite as minhas mãos concebem a circularidade da existência e reconhecem a presença de um único sentido, o da beleza. Ou do amor, que vem a ser o mesmo. Evocar hoje os deuses é puro snobismo. Estamos sós em noites como estas, face a uma lua pensativa e tensa, rodeados pela exuberância da natureza, pois numa noite assim tudo canta, grilos, rãs e pássaros da noite. Namorados pensamentos brilham pendurados na ramaria circundante. Sem nós a noite não seria bela. Seria apenas uma noite de lua cheia. Somos o pilar de noites como esta, porque lhe damos consistência e sentido. E a verdade é que não existe nenhum sentido a não ser a beleza nua de um astro luminoso a tomar banhos de sol. O sentido está em nós que vertemos humanidade em cada olhar que arrastamos pelo mundo. Noite de lua cheia, início da criação do mundo. Noite em que busco uma cidade perdida no céu mais fundo. E nem sequer mexe um sopro de vento na planura dos sentidos...