domingo, 5 de agosto de 2007

(minha) ânfora do amor




como amantes anónimos no Jardim dos Prazeres,
como lápides rodeadas de flores do amanhecer
nós vamos com os ossos encerados
caminhando pelo beiral da existência
temerários e apócrifos condenados
a um profuso lapso de (in)consciência

pergunto-me por que nos tememos
nos dominamos e nos encarceramos
na asisada palavra mais presente
por que não me emprestas a tua mão
agora e logo, ou mais à frente
para que ta beije como se em louvor
dos gestos que de ardentes são amor

desdigo-me quando te digo a dor presente
a agonia da próxima fala que sobrevier
ao tímido atavio da nossa ausência
contradigo-me se te escapo entre os dedos
na areia que acumulo ao esperar-te
contraceno-me se te explico o que me
acodes em cada momento
pois não é a ti que o digo, mas a mim somente
pois não distingo já nesta difusa imprecisão
o meu ser do teu em cada novo isntante
falar-te docemente é afagar-me por dentro
sentir a minha pele é vislumbrar as impressões
digitais dos teus dedos proficientes

não vás pelo lado da morte se me buscares
vai à vida pela fonte onde eu te encho
ânfora do amor com água doce dentro
pois a sede que me trazes é sede de mascente
não se esgota no lençol onde corre profusamente
não me busques na morte onde eu nunca ando
vive-me na vida iridiscente, nas corridas palo areal
como bichos contentes
na medida das palavras sempre mais ferventes
na euforia do encontro, tão raro e invidente
mas busca-me viva, pois por ti viva serei eu sempre