percorro o dia, numa escalada até ti. quero chegar de surpresa, a meio do libretto estando ainda a orquestra no allegro, muito antes do herói se despenhar no seio da amada. quero envolver-me contigo na capa e na espada e ser inconsequente como a vilã que percorre a trama de alto a baixo sem rasgar sequer o pano do palco. mas quero sobretudo chegar cedo ao meu lugar, ocupar o papel na acção bem cedo, com a primeira luz da manhã, e talvez já seja tarde para isso, com o sol do meio dia, tanta chuva, tanto espanto, as voltas da manhã, o almoço, impossível agora, talvez com o início da tarde, então talvez haja um tempo para mim, e gente, tanta gente na plateia ao meu lado, eu a querer chegar até ti, no meio de um multidão de tarefas, e depois já era tarde na tarde, e as nuvens cumelonimbus a ameaçar explodir, a sombra da tarde a alongar-se sobre o meu olhar, guardei para a noite a minha chegada ao outro lado do espelho, onde a ópera nos intensifica as pautas perdidas. tantas pautas já perdemos que é espantoso que ainda tenhamos voz. mas temos, e eu finalmente cheguei para o dueto da nossa vida, dá-me depressa as tuas mãos e o luaceiro do teu olhar, juntos vamos ser como as nuvens cumelonimbus, e troaremos os ares com a valquíria impetuosidade da paixão.