quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Relendo cartas...



Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Recolhimento íntimo

Podia rasgar a noite, é tão fácil rasgar o dia, a manhã, a tua alma, podia começar por dentro a esventrá-la como se fosse um corpo, povoando as estrelas de inquietação, dissipando o teu calor no meu, convocando os ventos laterais, as parcas, as chuvas de Maio, mas não, hoje prefiro contar-te uma história de menino até adormecer na quentura dos teus pés, sem este frio que nos despe, quando nos pensamos perto demais. Era uma vez um cavaleiro sem espada, um cavalo sem sela, um rei sem castelo...
... e tu sorris, já conheces a história. Não despertes os receios, adormece almofadado nesta narrativa curta não polarizada nem pelo bem, nem pelo mal. Um fim relativizado como todas as narrativas de adultos que nunca acabam sem ter começado. Vim só beijar a quietude da noite, celebrar a ocultação da lua para meu e teu sossego. De repente, a noite assim não venenosa pareceu-me um gato enroscado no meu colo, plácido e inofensivo nos seus sonhos primordiaias de pássaros e caçadas. Enlaço-me nos (seus) voos de um instante, na glória de ter habitado por um dia um minuto do teu pensamento, mesmo sabendo-te ainda por colorir, amarfanhar, riscar, dourar.
Olha como a noite está hoje sob o efeito de uma nudez maior que todas as outras. Estiveste tão perto que quase te senti a respiração na nuca. Um take, dois takes, três flashes, um clic e vi-te a sorrir-me com esses olhos azuis de doçura infinita que te imagino louros mas podem ser postiços e fruto da minha cegueira própria dos amantes que vagueiam por este mundo buscando-se, buscando-se, sempre cada vez mais perto na direcção oposta. Pode ser tudo isso, ou a capacidade de unir o pensamento a ti na breve fracção de segundos, quantos, talvez te lembres, mas agora são menos. Cada vez menos. Um relógio nas mãos, parado, na inutilidade do tempo que se faz cedo, sempre cedo.
Mas não vim tirar-te o norte, e sim entregar-te esta pequena bússula que aponta sempre para o lado do coração, onde te tenho. E se amar é um doce sentimento de partilha e alvoroço, hoje ainda quero o verbo amar mais doce e terno, sem flexões sombrias de sintaxe duvidosa. Calo-me no instante em que os meus dedos te acariciarem com tortura e não redenção. Mato os olhos da serpente. Calo-me agora.
E não, não quero que me dispas já da tua pele. Despe-te antes da noite que rasga a carne e abraça esta outra que te dou. A noite da tua infância quando ainda não conhecias o medo e o tempo era uma longa demorada trança... Purifica a noite com este fogo, este círculo de luz onde dormindo seremos livres para viver enfim longe.
Amanhã voltarei a embriagar-me de sol, o sol encherá os copos, a vida bebe-se devagar em copos pequenos, nós ingerimos copos, e é no sol que reunimos os átomos, a vontade límpida de viver cristalinamente, nós.
Até um novo amanhã, que amanhã me lembrarás intermitente no pulsar vertiginoso de tão intenso dia!