ouve, hoje não te vou falar das rotineiras rosas que desmaiam habituias nos meus versos, talvez nem chegue a rimar as palavras entre dentes, como rosários nas mãos desfeitas das velhas crentes. mas ouve bem, atenta no que te quero dizer, pois toda eu estou a ficar translúcida e transparente na minha existência que me designas etérea.
.preciso de inaugurar contigo a nova época do amor que nos (des)espera. tenho a casa iluminada e todas as panelas fervem no lume da demora. estendi para ti no chão de tijoleira um tapete que voa nas asas do entardecer, mas tudo quero deter hoje que não seja palpável ou audível com as mãos concretas da nossa procura. não voaremos em tons de anil porque como sabes o sonho denuncia-nos nus à boca da verdade, mas ajustaremos todas as contas que o corpo foi multiplicando sem dividir. somaremos o peso do que deixámos e do que perdemos no uso das almas.e julgaremos o tempo que nos prendeu. sairemos talvez absolvidos na nossa inocência de pecadores sem pecado à vista, feridos num mesmo crime de íntima cobardia.
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dentro em breve declinaremos novas palavras de amor e não saberemos resgatar o futuro, porque nos precipitamos a preencher o vácuo mais urgente. e que admiração nisso há, pois se esta intimidade nos coabita tão funda, como podemos respirar sem nos tocarmos por dentro, com os olhos em uníssono, a respiração unívoca, o desejo unido? o facto é que estamos dissolvidos, amor querido, disseminados na areida do deserto. pergunta-me se te quero perder e eu nego antes a própria existência do mundo; pergunta se te posso viver no limbo imaterial da existência e eu ruborizo, porque de tudo me lembro e o que lembro no limbo é vida e matéria subliminaremnte vivida. pergunta-me se me basta a vela acesa para ter a luz do sol inteira e eu não sei como te minta sem que o percebas.
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pus hoje na mesa um prato de dúvidas que quero degustes, salubre que seja a sua substância, mas prova as minhas dúvidas e espanta-mas, ou reparte-mas, avisa-te com as que puderes tomar contigo, alija-me a carga e permuta algo que ainda não me tenhas dado. talvez as tuas dúvidas, ou um compromisso selado de que o futuro não se lacrou com selo real e aparato de defunto. cultiva a esperança nos vasos do nosso quarto, diz que sim, que amanhã tens voz, ou que um dia me surpreendes à saída do trabalho para um beijo enlaçado de nós. mente-me, engana o determinismo da tua natureza, a nosso intimidade atinge o rio alto da sua crista em cada nova ilusão verdadeira que me deixes ficar sobre esta mesa. dá-me mais desta comida integral que nos ofertamos não pela boca, mas na pele. tu tens de descer à terra, canso-me do teu mundo de anjos arrojados na fancaria das vielas. quanto mais tez tiveres e palavras forem tuas da tua boca distante, a saber a mel, mais meu amor a intimidade nos prende, em demoras lâminas de prazer sobre a pele. ah, querido, esta indigência da alma tão vulnerável no corpo e na palavra. gosto, gosto do nosso mundo descalço e nu, e quero pintá-lo com toda a intensidade que me sabes tornear na pródiga vontade nossa de (tanta) vívida verdade ! o meu mundo maior e mais limpo és tu. o prazer que me permito retirar do corpo, tenho-o de ti em recusa de qualquer outro, porque não se escolhe a quem se quer tão imersamente dentro.