sábado, 28 de julho de 2007

o tempo do deserto


saio para a noite rubra do deserto, a noite imensa que te reservo. reconheço a lua gigantesca de todos os sonhos, é uma representação de desejos purificados, o lugar onde os olhares se entrecruzam em busca daquilo a que chamam felicidade. mergulho na noite árabe do meu imaginário e sinto a distância que os tempos nos impõem entre a sombra e a luz que (ainda) pulsamos. gostava de te ser ainda a mesma que te tacteava o rosto no escuro da solidão, dispersando pétalas pelo teu caminho, no rigor de todos os Invernos da nossa metamorfose. dava tudo para voltar a esquecer o teu nome entre todos os nomes que já aprendi, não porque isso significasse o esquecimento, mas porque te lembraria talvez mais feliz, deslumbrado ainda pelo fragor suave de todas as luas que nos emigraram. e porque o tempo em que não te soube, foi o tempo em que mais nos demos sem a consciência pesada da doação, quase ritual, que nos persiste agora. foi o tempo de todas as quimeras semeadas por dedos e mãos ocultas. é tarde para esquecer os lugares onde já vivemos, é tarde para recuperar os lugares perdidos, não podemos voltar a despir a pele que nos tenta e não sei se gostamos dela. tanto mundo à nossa volta, tanta luz desperdiçada no desencontro que te antepões. raramente o tempo deixa sequelas quando a renúncia se desembrulha devagar, sem remoinhos, sem luta, sem arranhões. vamos assim, na corrente dos dias, cada vez mais pela lâmina do mundo, já sem mundo para colorir. e mesmo assim ainda nos queremos muito. eu ainda guardo para ti o as papoilas da estação, ainda te construo um opiário de evasão, ainda me apresto à fuga para a ilha de todos os encantos. ainda receio que o teu olhar me renuncie como se soubesse pela minha bola de cristal que nos aguarda um tempo oculto entre , o tempo em que a lua do deserto, a tenda e o chá a meio da tarde nos molharão os corpos transpirados em cochins de brocado e caxemira de Bombaim. o dia ainda virá beijar-nos a pele com o doirado da vinha e o outono mais limpo que cada nova manhã trouxer. sairemos do quadro de Chagal, a tela iluminada de promessas, para partirmos de mãos dadas ao encontro das fontes e dos rios que sabemos amar. e das florestas. eu sei que sim, mas tu não me ouves e não me deixas dizer-te que não tenho pressa.