domingo, 22 de julho de 2007

endosso


renovo o quarto nos meus braços. talvez seja preciso retocar aqui e ali a pele do sorriso, talvez ainda te olhe sem te compreender, talvez me olhos disfarçando o riso. o meu corpo fervilha na margem obscura que o contém. sabemos da mudez do encontro, os objectos mortos readaquirem vida, depois dos rápidos pespontos que lhes demos. entre os escombros jazem as palavras decepadas, vontades que o encontro amotinou. quero-te sem querer que me saibas num tal querer. queres-me sem querer, oferecendo o teu mutismo em troca do meu avanço. cerro-me no teu corpo, com a primeira mirada. vês o brilho, regrides para a sombra. será no negrume da renúncia que mais se estilhaça a tua vontade. percorre-me uma paz enorme ao ver-te a naufragar longe, por estares tão perto. levo-te para o fundo do rio que nos corre pelas mãos. sentamo-nos na beira do velho sofá, enquanto sentimos que o tempo começa a contar para a eternidade. não queremos detê-lo, o tempo percorre-nos as veias, sabe como o encontro se faz no sangue, sempre à revelia do relógio. meu querido, digo e espero. é sempre assim que desatamos a ponta do amor, quando o estendemos no chão. bebo dos teus olhos toda a água do planeta, recomeçamos a bordar as palavras no pano dos gestos. tu gostas dos meus diminutivos tolos, desfio um rosário desatinado, para avisar que vou começar a beijar-te e a percorrer-te sem cerimónia o corpo. fechaste os olhos, anuência que me lavra o incêndio mais longe, até ao fundo da tua boca, na génese do beijo. línguas promíscuas que se buscam, fundamente loucas, as línguas roubam-se o fôlego restante. depois os olhos atrevem-se também fundo, tudo tão banal não fosse a ira, a vontade de quebrar o outro, a renúncia que se entrega, o lago negro em que nos deixamos afundar como pedras. prendes-me a cinta pelo meio, e mergulhas dentro do meu peito. não há razões restantes quando se entrega ao ser amado a doçura do peito, é toda a minha vida que segue endoçada na entrega, desejo que me exales a alma, na sofreguidão do beijo. as paredes em salitre, vejo-as notando mais que nunca os pormenores imperfeitos. embebem todos os suspiros, as paredes do quarto são como fitas magnéticas do desejo. nada ocorre dentro, sem que o quarto estremeça na intimidade em que nos prende. despes-me delicadamente. os teus gestos têm uma suavidade nova, como se me rirtualizasses na tua busca, só as mãos me falam, os olhos revertem para dentro onde um filme profundo lavra incendiando a pele. cada nova peça procria um novo beijo, alertas-me na dimensão mais onírica do meu corpo. aos poucos deixo o quarto e as paredes salitrosas, vejo-me feita de veludo, na crina das nuvens, coberta de frágeis rosas, rasurada pelas tuas mãos afoitas. tudo é belo na preemência da tua procura, o odor do teu corpo súbito me transporta para onde os sentidos tensos mais se arrojam. já não sei, meu amor, como a tarde tanto nos move no curso do outro. a saudade percorre-nos o sangue, mais fundo, e as pétalas maceradas nos teus dedos dão subitamente um fruto mais longo e mais embriagador. sugas-me o sal marinho, a salgada substância da pele exposta e quente ao sol de Julho. enquanto me olhas, o teu corpo e o meu semeiam-se juntos, numa nova estrada de aguda demora. vamos devagar ao encontro da falésia, que a estrada nos seja demorada e doce, musgosa como leito de rocha, ríspida e aguda como espinhos, fúlgida e lânguida como um sol posto que se esvai numa tela de óleo. como um pergaminho, abres-me devagar e possuis-me devagarinho no domínio tântrico dos astros.