ocultação na sombra, todas as minhas forças gravitam para a absorção telúrica, o sol deixa devagar os meus membros, resume-me ao frio argênteo da superfície da terra, privada ela própria de luz. sinto o corpo húmido, imerso verme na cegueira de existir. neste húmus banho a minha eple e visto-me de penumbra para me introduzir no calor do teu corpo. ardeu uma tarde inteira nas palavras sombreadas, a preparação das véticas dos astros. apresto-me para a cerimónia dos corpos no magnetismo que também nós, vermes da terra, partilhamos com a natureza. páram as marés, o mar cristaliza no pico de uma onda, as aves recolhem-se nos ramos, em clareiras onde tudo mais escurece e apenas morcegos, toupeiras e outros seres subterrâneos se atrevem na escuridão de morte. numa clareira da nossa floresta inerte, onde as árvores recolhem os frutos e as folhas escurecem, uma réstea de luar apresta-se a iluminar os nosso corpos, numa hábil refracção de cristais e lentes que nos ampliam a luz e o desejo. vens ungido de óleos nobres, trazes o odor do sândalo e um sorriso almiscarado que me encanta. eu sou a escuridão, a lua apagada, a terra espera-nos para se colocar entre a atracção dos nossos corpos, vamos, meu amor, perde-te em mim, aquece-me de ti, arde-me de sol, inunda-me do que resta de ti, antes que me apague nos sombrios minutos da tua ausência. quando não estás amor, nada brilha na superfície das coisas, imaginar sem ti a areia, imaginar sem ti a água lisa do lago, a água alegre do rio, a água falsa do pântano, a água viva do mar, imaginar sem ti o viço das plantas, a postura erecta das árvores, imaginar sem ti, meu sol, o movimento da sombra e o luzir das aves e insectos e de todo que vive na Terra, imaginar o céu e a nuvem sem ti, é como imaginar-me fora do meu corpo, e eu exangue de luz. vens a mim com a sede ácida dos teus membros, queres-me na tensão dos raios que ainda me podes desferir. despeja ainda em mim a tua força ardente nos minutos que nos restam, sejamos o opúsculo do tempo antes que o tempo nos obscureça o olhar, sinto-te mas não te vejo, recolhemos à boca as palavras que nos desciam já numa cascata lúbrica, as palavras sempre nos morrem a caminho do olhar quando os corpos se tocam, levemente se nos inundam na pele, não digas nada amor, adentra-te no meu corpo, a terra separa-nos já, sejamos o risco no céu, o ponteiro que se atrasa, o comoio que apanhamos no último momento, mas embarquemos já na retina, no limiar da morte, no limiar do desejo, no agitar das dunas, ancas astrais do corpo terrestre, no agitar do prazer que nos despe e nos reveste, dos raios últimos do último luar que nos quebra. uma derradeira cascata de luz inunda a clareira, na terra o meu corpo sangra os últimos raios, dentro tudo em mim chove mansamente, uma pulsão que nos distende, o magnetismo une-nos num quasar distante. derramo gota a gota a minha pele na penumbra, sou agora um corpo vivo, feliz, despojado da tua presença, partes para o outro zénite que habitas, eu volto a esperar o retorno dos teus raios distantes. a terra absorve esta silenciosa memória de amor. dos mistérios da natureza, é esta atracção da matéria o que mais une e separa os corpos. chama-se amor e habita no coração das estrelas.