domingo, 11 de março de 2007

Touchée


gosto de ficar a ouvir crescer as tulipas. em cada palavra uma pétala que mexe, um recolher de sépalas em cada nova frase, o caule desperto e vivo na terra que nos planta. ausento-me de mim por tempo indeterminado, a casa fica aberta à ventania, a casa é o silêncio, rumoramente apenas batem os batentes, agitam-se as portadas e o sol corrói mais dentro a velha tinta. é como viajar à pressa, sem bagagem entre desertos povoados de dunas, areias quentes, sem matéria orgânica, na busca do nicho do meu corpo e em dispersos átomos achar o encontro. a tenda no caminho aberta a pulso num montar de esteiras a viver milénios da existência humana no pulsar das areias, os passos pressionam os grãos, abrem o seu sulco na pele impertubável e páram adiante sempre no mesmo horizonte, sem pressa de erguer o presente. estar contigo e encontrar prazer nos vendavais, viver as tempestades de areia como se sedimentos fossem da viagem que leva aos paraísos ocasionais. estar contigo e medir a volumetria instável da paixão, as mãos, quem és, por que me prendes dentro de mim, eu que não caibo no mundo, e eu em volta da chama de asas queimadas ainda assim chego perto, tão perto que tremo e revolteio em voos de disfarçadas ternuras. e o silêncio que se demora nas mãos, as mãos também são asas e queimam. mas hoje repousam como aves recolhidas, no colo um reflexo de luz, uma luminosidade que o sol sublinhou antes de nos deixar, chama-se intimidade e esgrima-se com espadas e palavras e por vezes o tinir do riso servido em fina porcelana. Touchée, deixei o sangue todo, as veias rasgadas em afluxos de vermelhidão no rosto, nas têmporas, até o riso rubro, a nuvem esqueceu-se de passar, só tulipas ao ouvido, num fluxo aflito, cerquei-te do meu olhar bebi lentamente cada palavra, saio nutrida e agora devolvo-me à noite, e devolvo-te ao meu coração para que busques nele o sangue que tembém tu perdeste.
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Boa noite!