Agora somos nós nesta brecha da tarde, eu e tu a fumegar neste chá de flor de hibisco e de laranjeira, uma mistura que gosto de fazer, como gosto de me misturar contigo, imaginando que tenho nas minhas mãos a tua alma e delicadamente a beijo com ternura. Ou que me colei ao teu corpo, pele contra pele, o calor orgânico do amor, os dois tapados por uma manta macia e quentinha fora de qualquer lugar que tenha nome à beira mundo. Deixa-me pegar na tua fala e continuar a tua voz bem no fundo do olhar, vês, como fui lá fora buscar no verde do mundo os teus sinais de amar? Preciso sentir-te nos objectos, nas pedras e nos lugares altos, fora deste espaço frio onde só uma página nos une. E chegando ao fim, a chávena ainda apetece, mas a chaleira nem sempre tem mais, só restam umas migalhas de bolo e apenas mais tarde o líquido doce e quente virá de novo aquecer os corpos. Meu amor, como somos delicados fios eléctricos, uma corrente de palavras electrizadas, galvanizantes, extraordinariamente ternas, ou perturbadoras... É a substância de que somos feitos, aquela que nos conduz a busca, porque iguais no terno sabor da doação. Encontrei a tua palavra um dia, há muitos anos, e nunca mais houve outra, a não ser quando a tomava como tua, no breve espaço de tempo até o equívoco ser desfeito. E não entendes que agora o meu medo é esta cegueira recente, que me faz deambular nos areais frios sem te saber no horizonte? Olha-me, entre o vapor deste chá fumegante, não vês no meu rosto os sinais de amar-te? As pedras preciosas que te guardo, os cristais puros nas minhas mãos, uma corrente de pedras preciosas e palavras tuas, nada que não tenhas tu depositado no meu leito, uma maré cheia que só espera de ti um sinal, nada mais que isso. Enquanto preparava o chá, pareceu-me ouvir o meu nome. Li e reli, havia lá um nome. Não preciso de mais, chama-me insensível, obtusa, casmurra, mas só preciso de saber que me ouves e me guardas a palavra e a memória e a presença e o corpo e a fala e a alma inteira dentro da tua pele. O meu nome. Só a possibiliadade de o ser, deixou-me a fumegar ainda mais com os calores ridículos dos meus anos de mulher que por ti transpiram num retrocesso atá ao tempo em que tudo começou, menina e moça me levaram de casa de meus pais... É como fico perante uma pitada ínfima de realismo no meu chá. Tão saborosas mãos, ouves-me? Tão saborosos dedos, lábios, tantos murmúrios loucos, ouves? Espalhados os bocados de mim pela mesa que já arde e eu presa a esta chávena que bebo tarde, muito tarde, como se bebesse da tua boca o mel da sobrevivência. Pronto, já disse. Não me dou bem com a renúncia, mas a primeira tendência é sair de cena e deixar o toureiro para quem o quer seu, sobretudo se for essa a sua vontade. Luto por muita coisa, lutei sempre por ti até agora. O meu coração aponta para ti, tu és a verdade, a minha verdade única, mesmo sem uma palavra tua cravo já na tarde as frapas da loucura e a minha persistência não terá limites. Preciso tanto de ti... e ouço-te mal, às vezes. Podias falar-me como se fala a uma pessoa que tem ouvidos e olhos e nem sempre os usa? Beijas-me e tomas-me de assalto o corpo. Ah, meu amor, sabe-me tão bem este chá contigo assim na dobra íntima do corpo...