a casa é o lugar onde pousas os ossos, dizes, é aqui e começas a dispor os teus livros e a tua sombra. o teu corpo não habita logo a casa. terá de chover por dentro, para a casa ser lugar de abrigo. e mesmo assim não há lugar de abrigo para casa onde vivas só, mesmo que a dividas. raramente as casas nos desocupam, somos nós que as desertamos com a nossa impermanência. uma casa pode ser caiada por fora e por dentro, alva como a madrugada, ou escura e empedernida pelos anos, mas numa como noutra seremos felizes se formos os quadros, as estantes, os livros, as mesas e em tudo nós nos bastarmos. vivemos da casa se ela nos estreitar o bastante.
a nossa casa é a casa onde fazemos amor como não se faz em mais lugar algum. com as paredes, com a cama, connosco próprios, eu e tu no coração da casa trémulos e nus sob as traves de madeira, a casa cumpre-nos o destino do corpo, a densa curvatura do prazer acha-se no soalho cúmplice da casa que somos. inventámos a casa porque temos um corpo presente que se sedentariza. de repente o corpo do outro já não cabe no nosso e busca o lugar onde mais se adentra, a casa, o lugar da busca, quero-te na minha intimidade, no segredo profundo do ouvido, no fundo mais fundo da pulsão do sangue, na sombra que cruza a casa ao meio dia, no vagar das chamas. queremos achar na casa o lugar do mundo deixando o mundo de fora e há casas que são o próprio mundo. a casa que somos não nos cobre só o silêncio da pele, a casa sonha-nos como habitantes permanentes prisioneiros das paredes, dos corpos, dos ruídos que vêm de dentro, das próprias vozes. se viveres numa casa, viverás lá sempre porque tu foste a casa. só há uma voz na casa. a tua. sonho com a morte da casa quando não estás e ela me aperta o coração, como se a tua morte fosse a alienação patrimonial de tudo. e é, porque sem o teu corpo, sem as tuas mãos na minha cinta, sem a tua boca nos meus seios, sem a tua voz no meu ouvido, perdem-se as paredes, os tectos vacilam, as mesas tremem, caem por terra todos os candelabros que comprámos aos domingos nas antiguidades da vida, afunda-se o soalho que piso, a casa vira. o que é para ti a casa que tanto a empenhas e penhoras em troca de ti mesmo? queres deixar de ser a casa, mas o teu corpo ficou nas estacas, todas as fundações são os teus ossos e os teus membros e, como sabes, há uma doçura colada ao teu corpo quando se ergue sobre o meu e a casa cresce até ao infinito. a casa é o teu espasmo quando desapareces dentro de ti mesmo.