às vezes quando eu passo o mundo fica às escuras. há estradas secundárias desertas, sem luzes, e só o céu de cobre da cidade longínqua me orienta a marcha. ou a lua que rompe o véu de chumbo e pisca o seu cílio sombreado apenas por breves segundos. desconfio que o céu fecha às quintas-feiras quando eu regresso do trabalho. a lua brinca apressadamente ora à esquerda ora à direita, umas vezes rosada e cheia, outras apenas um enigmático sorriso descontente. a metade, sempre que vejo a lua vejo uma metade. havia de parar para lhe ver a outra face, mas só há um sentido no percurso, proibido parar e estacionar na noite fechada numa estrada sem mundo. sobretudo se houver sobre nós uma abóboda de chumbo. a parede começa a erguer-se ainda fora, no limite do tempo. constrói-se pedra a pedra o muro onde o corpo se esconde do êxodo de si mesmo. o quarto está pronto quando o corpo cai sobre si e encontra a pele macia da cama, como se fosse outro. voltar a casa é voltar à pele que tecemos durante o dia na ausência do olhar.