quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

frente ao espelho do olhar

ponto final parágrafo, travessão na outra linha. assim começa a estória de mais uma noite no deserto do olhar. ela entra no seu pequeno mundo feito de objectos sempre fora do lugar, um grande mundo desordenado que a enlouquece devagarinho sem gritar. volta a baralhar e a dar, o caos regressa ao lugar de origem, ordenar e dar, baralhar e desembaraçar, como se fizesse um poema labiríntico, um poema feito à pressa num canto da casa, uma teia que a sua miopia deixou crescer na falta de espanador que lhe ajuste a realidade a caminho do sonho. um aranhiço é um sinal de carta ou feitiço. ponto final, travessão na mesma linha, transição para o sonho que lhe caminha nos pés desclaços, peça a peça solta pela casa. a aranha que se despe para se vestir de noite é já menos doméstica e mais sedutora, no relance que lança ao espelho, sempre surpresa por ser quem é, na esperança de um dia encontar um rosto novo. ou um outro corpo atrás do seu, em contraste de cor, tamanho e volume, um corpo que se lhe reunisse, vindo da teia do seu inconsciente, como promontório da própria noite, seu filho e seu braço de envolvência doce. assim seria se fosse. e o poema começa ali mesmo frente ao espelho, nas voltas do seu corpo. escreve-se no prazer de si, como se afinal a imagem permanecesse, a sua, a do outro, uma e outra afinal ambas no deleite do abraço fundo. pronuncia um nome, num movimento de lábios, toca o nome, bebe-o entre lábios, suga-lhe a pele, sente-lhe o perfume, um nome é o princípio de tudo, meu amor, a mágica palavra que o define, apenas lhe sabe a expressão com que o confunde. deita-se num leito de rosas inventadas e abraça a noite como se esta fosse uma estrada quente, batida pelo sol do estio. nos braços com que o prende, a música longínqua entre os dois desfila, um rumor sensível, sentido na pele estranha e vizinha, conheço-te, vens a mim pela manhã, és meu pela tardinha, visitas-me o leito entre sonhos, nesta ilusão tua e minha. silêncio entre corpos, a mão que busca o centro do prazer, cresce a mão no escuro, como um braço de mar, a maré vem sobre o rio, desagua a noite toda sobre a corrente plácida e ela sabe que jamais voltará a estar só frente a um espelho na nudez de se olhar.