sábado, 24 de fevereiro de 2007

salão de chá

se me encontrares num salão de chá, decorado com motivos indianos, com bizarras almofadas e cochins de Ceilão, avisa-me que me reconheces, pois eu não te distinguirei das estátuas enigmáticas dos deuses do caos e da criação, nem saberei que inclinação tem o teu gesto. estarei imersa num chá de rosas doces e perversas, a transpirar o aroma do silêncio e não poderei buscar-te onde não sei se estás, porque tudo em nós é possibilidade, um ritual antigo e raro, aquele em que nos sabemos presentes onde sabemos não estar. se me encontrares numa infusão de ervas, sabe que é o meu sangue que levas aos lábios, se o bebes. se tropeçares no meu busto, saberás que nele assenta um vaso de magnólias a crescer no oxigénio que respiras e que um dia, nas folhas restantes dessa planta, saberás ler o meu futuro que então será passado. terei sublimado todo o meu aroma e viço na água de amar-te, e restará de mim o sabor doce de uma chávena ardente, fumegante, mas já ingerida até ao fim, sem mais sobras que umas ambíguas folhas a lembrar um nome, talvez a seda dos lábios, as coxas voluptuosas vividas num serralho proibido, os bicos túrgidos, os sete véus da fala primorosamente engomados, as ancas floridas com os gestos que o amor te tem guardados. se me vires numa casa de chá, como se num opiário reclinada, saberás que é a ti que ingiro quando acendo as ervas misturadas e as refundo no fundo do espelho. se me vires enfeitada de rosas aromáticas, beija o meu corpo entre as almofadas e deixa que nos misturem como ervas secas para produzirmos juntos o eterno chá das palavras.


Boa noite!