sábado, 24 de fevereiro de 2007

jardins do paraíso


não basta falar das manhãs sem desertar por inteiro as cidades
consumir a relva toda da urbanização não basta para dizer verde
cada dia que nasce pede-nos verdade e nós só temos a mentira
escondida nas muralhas invisíveis das cidades de dormir
percorre-me o olhar a visão de água lagos e jardins do paraíso
um qualquer spa de luxo não me contenta o que a fome tem de viço
quero abraçar o verde afrodisíaco molhar o corpo em água da nascente
ser a cascata, a fonte o fio de água contente, o nenúfar que nada calmamente
talvez o cisne enamorado a luz que aquece a flora a fotossíntese

quero voltar a ser húmus florescente, acesa ao sol a minha haste
esquecida assim de que há prisões onde nos soltamos apenas pendurados
pelos fios ténues das grades de algodão.

quero ser árvore e ser provavelmente rio ou só serpente,
enrolada no tronco original quero ser estame
fémina florestação da natureza num útero de maçã
toda a humidade da pele a crestar na carícia do sol
mas dentro de mim há um coração que explode numa armadura de cimento
e eu aqui não tenho trilho para regressar à inocência original
dos jardins do paraíso há muito tempo.


Bom fim de semana!